Como a música clássica pode nos ajudar a viver esse período de quarentena?

QUI 27/08/2020 às 16h
Laércio Diniz
Cristian Budu
Abel Rocha
João Marcos Coelho
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Música clássica encontra soluções criativas para atuar em tempos de pandemia

A live de quinta-feira, 27 de agosto, mostrou que a música clássica está encontrando soluções inéditas para lidar com uma situação inédita. Os dois maestros – Abel Rocha, titular da Orquestra Sinfônica de Santo André, e Laércio Diniz, titular da Orquestra Sinfônica Municipal de João Pessoa – e o pianista Cristian Budu adotaram posturas diferenciadas que podem servir de exemplo para a comunidade musical brasileira.

Laércio Diniz instituiu o projeto “Um minuto, maestro”, em que cada músico da orquestra paraibana grava um vídeo curto falando sobre seu ofício e a obra que vai interpretar. “A cada três dias, desde março”, diz Diniz, “postamos um vídeo diferente nas redes sociais, e isso torna a orquestra muito presente no dia-a-dia da população de João Pessoa”.

Abel Rocha, em Santo André, concebeu dois projetos inéditos que constituem paradigmas de um novo comportamento de instituições como as orquestras brasileiras – eixos da vida musical não só em suas cidades-sede, mas também para o país inteiro.

O primeiro intitula-se “Microestreias da Quarentena”. O maestro explica: “A partir da pandemia, em março, encomendamos obras camerísticas para oito compositores brasileiros. As obras foram pensadas para serem executadas com cada músico em sua casa”. Isso resultou 40 minutos de música, oito obras não só tocadas em tempos de pandemia, mas pensadas por seus compositores para uma veiculação virtual, pelas redes.

O segundo projeto, lançado em agosto, intitula-se “Trilogia Trancafiada”. Abel Rocha explica: “É uma ação virtual inédita em formato vídeoarte, desenvolvida para ir ao ar no youtube. São três curta-metragens para redes sociais visando expressar artisticamente sentimentos vividos por muitos de nós desde março passado, sentimentos decorrentes do isolamento social”. Os curtas são assinados por Luísa Almeida e intitulam-se “Ansiedade”, retratando os primeiros tempos de situação pandêmica, em que o dia-a-dia alterou-se brutalmente; “Adaptação”, com os músicos e a orquestra adaptando-se aos novos tempos de isolamento; e “Acolhimento”, o período em hoje vivemos. Todos disponíveis no youtube.

Já o pianista Cristian Budu é um músico diferenciado. Vencedor do Concurso Internacional Clara Haskil aos 25 anos, em 2013, um dos mais importantes do mundo, é hoje apontado pelo próprio Nelson Freire como seu sucessor. E não se contenta em desenvolver uma carreira internacional convencional. Ao contrário, depois de morar alguns anos em Boston, onde estudou, ele decidiu que seu lugar é aqui mesmo, no Brasil. “Em vez de visitar meu país, prefiro morar e atuar aqui mesmo; e, dependendo dos compromissos no exterior, viajar. Mas minha base é aqui”. Como pianista, está habituado ao isolamento, mas destaca que “sou um animal social, preciso do contato com as pessoas. Tanto que desenvolvi um projeto intitulado "pianosofia", em que reunimos grupos de músicos para tocar nas casas das pessoas. Podem acessar o site www.pianosofia.com “.

A série #CulturaeMemória

Durante a vigência das medidas de isolamento social, as artes e a cultura assumiram um espaço significativo nas nossas vidas - as tecnologias digitais e de rede quebraram o último portal que separava os espectadores, leitores e alunos das manifestações artísticas. 

Mas, nesse processo, quais mudanças de paradigmas na nossa relação com as artes foram operadas? E, indo além, como acontecerão os concertos, peças de teatro, e exibições de filmes ao final do isolamento social? 

Para pensar sobre esses temas, a série Arte & cultura em busca de uma reinvenção permanente, com a curadoria de João Marcos Coelho, trouxe especialistas nos temas para refletirmos juntos, em 10 episódios, sobre esses caminhos e possibilidades.