Preserva.Me 2020: Difusão de acervos

Postado em 26/10/2020
Luiz H. Romanholli

Jornalista formado pela Escola de Comunicação da UFRJ, foi repórter e subeditor do caderno de cultura do Globo (RJ), além de editor-adjunto de Esportes e editor do suplemento de carros do mesmo jornal. Numa segunda passagem pelo Globo, exerceu a função de gerente de produtos, negócios e projetos especiais. Na Globo.com e TV Globo, foi gerente de conteúdo/editor-chefe dos sites GloboEsporte.com, Big Brother Brasil, Ego e dos programas de entretenimento da emissora (Projac). Na Memória da Eletricidade, é editor do site e consultor.

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A sexta edição do Encontro Internacional de Preservação e Memória, Preserva.Me 2020, começou na manhã desta segunda-feira, 26 de outubro, apresentando o painel “Ações internacionais de difusão de acervos”. Helena Patrício, mestre em Estudos de Informação e Bibliotecas Digitais e coordenadora da Biblioteca Nacional Digital de Portugal, e Joaquim Marçal, doutor em História Social, coordenador da Biblioteca Nacional Digital do Brasil e curador do portal Brasiliana Fotográfica, contaram suas experiências e debateram sobre os desafios e possibilidades da gestão de acervos digitais e seu compartilhamento por diferentes países. Na parte da tarde, a museóloga Álea Almeida e o historiador e pesquisador Pedro Belchior Rodrigues, ambos do Museu Villa Lobos, ao lado do roteirista e curador Leonardo Menezes e do editor artístico Eduardo Carvalho, os dois do Museu do Amanhã, participaram do segundo painel do dia: "Google Arts & Culture como ferramenta de acesso e difusão de acervos museológicos".

O Preserva.Me 2020 tem como tema de sua 6ª edição “Memórias digitais: ações de preservação e difusão de acervos”. O evento acontece entre os dias 26 e 30 de outubro, apresentando 9 painéis que abordam 5 pilares temáticos: "Difusão de acervos", "Curadoria digital", "Acervos e documentos", "Humanidades digitais" e "Integração de acervos". Em decorrência do isolamento social imposto pelo surto do coronavírus, pela primeira vez, o Preserva.Me acontece inteiramente on-line, sem evento presencial. Os painéis podem ser acompanhados pelo canal da Memória da Eletricidade no Youtube.

Antes do primeiro debate, o presidente da Memória da Eletricidade, Augusto Rodrigues, e Rafael Nóbrega, presidente da Fundação Biblioteca Nacional, inauguraram oficialmente o evento, destacando a importância da colaboração e parceria entre as duas instituições:

– Esta edição do Preserva.Me vai explorar as formas de usar a tecnologia disponível a favor da preservação histórica, característica da sociedade da informação, que já superou a ideia de arquivamento do conhecimento e que, atualmente, trabalha ativamente no processo de difusão, utilizando todas as ferramentas e os instrumentos da era digital – disse. – Fóruns como o Preserva.Me são essenciais para que possamos atingir os objetivos de troca e compartilhamento.

Memória da Eletricidade prepara lançamento de revista

Augusto Rodrigues também anunciou duas novidades na Memória da Eletricidade, que em 2020 completa 34 anos:

– No ritmo das grandes transformações promovidas pela Memória da Eletricidade, é com alegria que anuncio mais um lançamento que marca este novo momento da nossa instituição. Estamos criando mais um canal para compartilhar informações relevantes e conteúdos especializados: é a revista "Comunicação & Memória", que será lançada em janeiro de 2021, com versões impressa e digital. A publicação será trimestral, trazendo entrevistas, artigos inéditos de especialistas nacionais e estrangeiros e poderá ser acessada de diferentes dispositivos – anunciou. – À preservação histórica, ao desenvolvimento de projetos de Memória Empresarial, de gestão documental, e de gestão dos acervos históricos, agora, nesse ano de 2020, estamos agregando um novo objetivo, que é o desafio de atualizar os profissionais especializados, nas áreas de energia e de eletricidade, além dos profissionais que atualmente trabalham nas áreas de acervo e memória. 

Rafael Nóbrega contou que, se por um lado a pandemia impediu que o público visitasse o prédio da Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro, por outro acabou se tornando uma oportunidade de crescimento para sua versão digital:

– O número de acessos ao nosso acervo digital cresceu 70%. As pessoas quiseram buscar informações sobre outras pandemias, acontecidas no passado. Isso reforça o fato de que temos o desafio de levar a Biblioteca Nacional para o século XXI, botar definitivamente nossos pés no digital – disse, destacando ainda a importância da cooperação entre as duas entidades: – A Biblioteca Nacional persegue o mesmo que a Memória da Eletricidade, que é a guarda de bens culturais. Temos muito em comum.

Primeiro painel: "Ações internacionais de difusão de acervos"

No painel de abertura, que contou com a mediação da historiadora, arquivista e gerente de Acervo e Pesquisa da Memória da Eletricidade, Amanda Carvalho, Helena Patrício e Joaquim Marçal também mostraram vários exemplos de parcerias e compartilhamento de acervos digitais entre bibliotecas de diversos países. Marçal destacou que a Biblioteca Nacional, instituição fundada em 1810, lançou seu acervo digital em 2006 com três mil itens oriundos de projetos temáticos de digitalização iniciados em 1998. Hoje, a instituição conta com mais de dois milhões de documentos digitalizados e 21 milhões de páginas. Nesse contexto, a cooperação entre instituições é fundamental:

– Com o objetivo de ampliar esse acervo digitalizado e disseminar o conhecimento, trabalhamos em parcerias com instituições públicas e privadas. Procuramos colaborar com iniciativas de digitalização e disponibilização de acervos, através da transferência de conhecimento sobre normas, padrões e diretrizes – contou Marçal. – Neste campo, eu destacaria a Rede da Memória, coordenada pelo Vinicius Martins, que procura atender instituições sem condições de digitalizar seus acervos. Estas nos procuram, e a Biblioteca Nacional auxilia nesse processo e também na gestão de metadados.

Biblioteca digital reúne acervo de 193 países

Marçal cita ainda o Projeto França-Brasil (de 2009), A Biblioteca Digital Luso-Brasileira (criada em 2015), a Biblioteca Digital do Patrimônio Iberoamericano (Abinia, lançada em 2012 pela Biblioteca Nacional da Espanha) e a Biblioteca Digital Mundial. Criada em 2007 com apoio da Unesco, esta última tem cerca de 20 mil itens de 193 países:

– São peças que vão de antes de Cristo ao século XXI. Pelo projeto França-Brasil, temos, desde 2018, itens de acervo hospedados no datacenter da Biblioteca Nacional Francesa. O objetivo dessas iniciativas é a criação de um repositório que permita a consulta unificada para acesso aos recursos digitais.  

A Biblioteca Nacional Digital de Portugal também trabalha de forma colaborativa com outros portais e sistemas de informação para agregar dados e fazê-los visíveis e disponíveis em plataformas internacionais. Seus itens de acervo podem ser acessados em duas bibliotecas digitais internacionais: a Europeana e a Biblioteca Digital Luso-Brasileira.

– Desde 2007, a Biblioteca não tem financiamento próprio, verbas do governo para digitalização. Fazemos tudo por projetos comunitários, ou no âmbito Europeana, com financiamento direto da União Europeia, ou ainda com verbas de empresas privadas, que nos pagam para digitalizarmos determinadas coleções – explicou Helena Patrício – Assim, temos dado prioridade à digitalização de itens que são perigosos de manusear, como mapas, imagens muito grandes ou postais muito pequenos.

A Biblioteca Nacional Digital de Portugal tem suas origens em 1998, mas se tornou um projeto autônomo quatro anos depois, tendo sido integrada à biblioteca física em 2007. Hoje, a BNDP tem cerca de 35 mil itens digitalizados de um universo de 3,5 milhões que compõem a biblioteca física.

Cadastre-se no site e assista ao vídeo da íntegra do painel “Ações internacionais de difusão de acervos”, com Helena Patrício e Joaquim Marçal, com mediação de Amanda Carvalho:


Segundo painel: "Google Arts & Culture como ferramenta de acesso e difusão de acervos museológicos"
Mediado por Ana Paula Goulart, consultora da Memória da Eletricidade, o segundo painel do dia, "Google Arts & Culture como ferramenta de acesso e difusão de acervos museológicos" confirmou a relevância da tecnologia na manutenção e na divulgação de acervos. Com participação ativa do público, Álea Almeida, Pedro Henrique Belchior Rodrigues, Leonardo Menezes e Eduardo Carvalho representaram duas instituições com histórias distintas, mas que enfrentam desafios semelhantes na era da informação. A televisão ainda era novidade quando o Museu Villa-Lobos abriu as portas em Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro, em 1960. Já o Museu do Amanhã, inaugurado em 2016, é a concretização de um projeto que nasceu digital, concebido a partir dos recursos da internet. Na tarde desta segunda-feira, o espaço virtual do Preserve.Me 2020 reuniu representantes das duas instituições para uma conversa.

No contexto das comemorações do aniversário de 60 anos, a direção do Museu Villa-Lobos havia previsto como uma das prioridades de 2020 a digitalização do acervo – criado para servir como referência da vida e da obra de um dos maiores compositores do brasil e valorizar as manifestações de música brasileira. Mas, assim como aconteceu em diversos setores, a pandemia chegou exigindo mudança de rota e respostas rápidas. Com a suspensão das visitas e a adoção do trabalho remoto para pesquisadores e funcionários, a narrativa digital surgiu como saída para garantir a manutenção das comemorações e o próprio funcionamento da instituição. 

Desde de março, o Villa-Lobos se mantém aberto no site e nas redes sociais. Além de publicações temáticas, vêm acontecendo miniconcertos e cursos virtuais. Nem o festival, que acontece desde 1962, precisou ser adiado. A versão on-line do evento tem estreia prevista para novembro. 

A inauguração de uma exposição na página do museu marcou o início da parceria com o Google Arts & Culture. Na plataforma, 50 itens do acervo original do museu podem ser conectados com importantes coleções em todo o mundo. De maio até setembro, cerca de 3.600 pessoas prestigiaram a exibição. Recorde absoluto que Álea Almeida enxerga como evidência da democratização do acervo e da própria ideia de museu:

– A curadoria digital não é exclusiva dos profissionais de museu, ela é também do público – disse a curadora técnica do Villa-Lobos.

Colaboração coletiva, o desafio do Museu do Amanhã

A criação colaborativa tem sido, desde sempre, o desafio do Museu do Amanhã. Com o Google Arts & Culture a instituição ampliou o diálogo com o público externo. Eduardo Carvalho, editor artístico do Museu do Amanhã, acrescenta que a equipe da plataforma chamou atenção para a adoção de alguns protocolos como, por exemplo, a produção do conteúdo em inglês e o cuidado para que exibição funcione em formatos menores como a tela do celular. 

Novos formatos geram novas possibilidades de o público interagir com as coleções. Com ferramentas de mensuração e acompanhamento oferecidas pelo Google Arts & Culture, Leonardo Menezes, curador, gerente de exposições e roteirista do Museu do Amanhã, vem observando o fenômeno:

– As experiências são fragmentadas, discursivas. O público retrabalha o acervo de diversas formas produzindo visões cada vez mais pessoais – contou.

Cadastre-se no site e assista ao vídeo da íntegra do painel "Google Arts & Culture como ferramenta de acesso e difusão de acervos museológicos" , com Álea Almeida, Pedro Belchior Rodrigues, Leonardo Menezes e Eduardo Carvalho:


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Confira a cobertura dos outros dias de evento:

Curadoria digital

Acervos e documentos

Humanidades digitais

Integração de acervos

Luiz H. Romanholli

Jornalista formado pela Escola de Comunicação da UFRJ, foi repórter e subeditor do caderno de cultura do Globo (RJ), além de editor-adjunto de Esportes e editor do suplemento de carros do mesmo jornal. Numa segunda passagem pelo Globo, exerceu a função de gerente de produtos, negócios e projetos especiais. Na Globo.com e TV Globo, foi gerente de conteúdo/editor-chefe dos sites GloboEsporte.com, Big Brother Brasil, Ego e dos programas de entretenimento da emissora (Projac). Na Memória da Eletricidade, é editor do site e consultor.