Preserva.Me 2020: Integração de acervos

Postado em 30/10/2020
Luiz H. Romanholli

Jornalista formado pela Escola de Comunicação da UFRJ, foi repórter e subeditor do caderno de cultura do Globo (RJ), além de editor-adjunto de Esportes e editor do suplemento de carros do mesmo jornal. Numa segunda passagem pelo Globo, exerceu a função de gerente de produtos, negócios e projetos especiais. Na Globo.com e TV Globo, foi gerente de conteúdo/editor-chefe dos sites GloboEsporte.com, Big Brother Brasil, Ego e dos programas de entretenimento da emissora (Projac). Na Memória da Eletricidade, é editor do site e consultor.

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O painel que encerrou, na manhã desta sexta-feira, 30 de outubro, a sexta edição do Encontro Internacional de Preservação e Memória, Preserva.Me 2020, debateu, a "Interoperabilidade entre acervos digitais de arquivos, bibliotecas e museus". A partir do tema do dia, "Integração de acervos", Carlos Henrique Marcondes, professor titular da Universidade Federal Fluminense (UFF), doutor em Ciência da Informação, pesquisador do CNPq, professor visitante da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e consultor em diferentes projetos de acervos digitais em bibliotecas, arquivos e museus, e Dalton Lopes Martins, professor na Faculdade de Ciência da Informação da Universidade de Brasília (UnB) e coordenador do projeto Tainacan, um software livre para organização e difusão de acervos digitais desenvolvido em parceria com o Instituto Brasileiro de Museus, falaram das possibilidades e dificuldades no Brasil de se integrar acervos de diferentes instituições.

O Preserva.Me 2020 tem como tema de sua 6ª edição “Memórias digitais: ações de preservação e difusão de acervos”. O evento acontece entre os dias 26 e 30 de outubro, apresentando 9 painéis que abordam 5 pilares temáticos: "Difusão de acervos", "Curadoria digital", "Acervos e documentos", "Humanidades digitais" e "Integração de acervos". Em decorrência do isolamento social imposto pelo surto do coronavírus, pela primeira vez, o Preserva.Me acontece inteiramente on-line, sem evento presencial. Os painéis podem ser acompanhados pelo canal da Memória da Eletricidade no Youtube.

Cadastre-se no site e assista ao vídeo da íntegra do painel "Interoperabilidade entre acervos digitais de arquivos, bibliotecas e museus", com Carlos Henrique Marcondes e Dalton Lopes Martins:



Painel: "Interoperabilidade entre acervos digitais de arquivos, bibliotecas e museus"

Carlos Henrique Marcondes abriu sua fala chamando a atenção para o quão importante é hoje para as instituições de guarda uma presença na internet:

– A imprensa brasileira tem destacado bastante a situação das instituições brasileiras de memória e cultura sob impacto da pandemia do Covid-19. Eu chamo atenção para o fato de que, já em 2008, um estudo desenvolvido pelo Instituto Nacional de Museus e Serviços de Bibliotecas dos Estados Unidos mostrava que havia uma correlação forte entre a presença de uma instituição de memória e cultura na internet e acesso físico a essa instituição. Segundo esse estudo, o aumento do acesso na internet estava correlacionado ao aumento físico. É a presença na internet é uma questão de vida ou morte para essas instituições de memória e cultura. Elas dependem cada vez mais da internet.

Política permanente de incentivo à presença das instituições de guarda on-line

A partir dessa premissa, Carlos Henrique Marcondes mostrou uma série de boas práticas para que essa presença se dê de forma eficiente e atrativa para o público. De questões de gestão e governança a boas práticas de armazenamento, catalogação e exposição dos acervos. 

– Esse como fazer nos leva a várias perguntas – provocou. – Mas, antes de tudo, é fundamental estimular uma política permanente de incentivo à presença das instituições on-line. Os exemplos da Wikipédia e da Europeana são exemplares. Ambas só existem na web, não existem como instituições físicas. Portanto, é, sim, possível que arquivos, bibliotecas e museus tenham uma presença forte na internet para ampliar seu público.

Uma gestão que integre as diversas áreas da instituição é pré-requisito, na visão do professor.

– Boa parte das instituições têm enxergado as TIs como secundárias nas suas atividades. Mas estas se tornaram centrais se o que se deseja é uma presença duradora e consistente na web. O site da instituição é o canal privilegiado, contém a base de dados. Pesquisadores e arquivistas precisam trabalhar em conjunto com os profissionais da tecnologia – aconselhou, acrescentando uma prática importante em termos de curadoria: – É fundamental que o acervo marque os objetos que são destaque na sua coleção. Outro trabalho importante é segmentar o acervo por coleções, como é o caso da Europeana.

"O possível agora deve estar conectado com o que seria desejável no futuro"

Carlos Henrique Marcondes citou três ambientes digitais em que a interoperabilidade de bibliotecas, arquivos ou museus se dá de forma bem feita: American Art Collaborative, Paris Museus e a Rede de Museus do Rio.

– Mas, para isso, é importante que haja vocabulários de uso comum entre as instituições. É preciso atender a padrões, com uma política de presença permanente na web. É preciso dizer não a soluções caseiras. Deve se buscar soluções permanentes – alertou. – A aderência a padrões garante interoperabilidade. O possível agora deve estar conectado com o que seria desejável no futuro.

Dalton Martins fez uma exposição mais técnica, exibindo gráficos e esquemas para melhor gestão e armazenamento de dados e itens de acervo. E também ressaltou a importância de uma política e um planejamento dentro das bibliotecas, museus e arquivos no momento de digitalizar e estabelecer uma presença on-line: 

– Trabalhar a partir da ideia de redes como uma estratégia estruturante. Interoperabilidade é um tema bastante estudado e discutido de maneira intensa nos últimos três ou quatro anos. No Brasil, têm sido publicados vários trabalhos científicos, reconhecendo a importância estratégica que o tema tem. 

Usuário não pode se perder no conteúdo

O professor da UnB sugere que um acervo, quando exposto na internet, seja amigável para o público:

– Deve-se querer que o usuário não se perca no conteúdo. Mas por que é tão difícil vermos projetos sendo implementados? São várias as razões. Falta de sistemas de informação interoperáveis implementados nas instituições. Isso gera dificuldade de extração de dados, porque o sistema se transforma numa caixa preta. Outro problema é a falta de modelos de governança da informação. Modelos precisam ser combinados. Qual modelo a instituição deve adotar? Por último, a necessidade de uma política para apoio e capacitação das instituições nessa direção. Exigir uma ferramenta que dê conta da diversidade de acervos de multifacetados. As soluções precisam ser simples e escaláveis. Quais modelos de metadados, critérios de catalogação, vocabulário adotado...

Dalton Martins mostrou dados da pesquisa TIC Cultura 2018.

– É uma excelente pesquisa para quem quer entender o panorama brasileiro – recomendou. – Usamos a TC na UnB. Hoje no Brasil, apenas 38% dos arquivos, 12% das bibliotecas e 15% dos museus têm presença on-line. Ou seja, a grande maioria das instituições de guarda não disponibiliza seu acervo na internet. Além disso, somente 31% das bibliotecas digitalizaram seus acervos. É pouco, mesmo levando em conta as questões de direitos autorais. 

Utilizada pelo Ibram, ferramenta Tainacan reúne 16 museus

O projeto Tainacan também foi apresentado por Dalton Martins. Trata-se de una ferramenta flexível para WordPress, que permite a gestão e a publicação de coleções digitais com a mesma facilidade de se publicar posts em blogs, mas mantendo todos os requisitos de uma plataforma profissional para repositórios. A ferramenta vem sendo usada pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), num projeto que reúne sites de 16 museus, com 12.830 itens.

– Nesse projeto, precisamos de uma ferramenta de busca integrada para extrair a informação desses acervos. Mas, no processo, não bastava extrair e organizar esses acervos. A grande questão era como fazer uma conexão entre os acervos de 16 sites diferentes – contou. – A ideia da interoperabilidade é servir ao cidadão, facilitar o acesso ao conteúdo dos acervos.

Padrões não devem ser intocáveis

No debate mediado por Amanda Carvalho, historiadora, arquivista e gerente de Acervo e Pesquisa da Memória da Eletricidade, os dois pesquisadores lamentaram a falta de políticas públicas para o setor da memória, o que permitiria padrões comuns de catalogação. 

– Essa diferença de catalogação é uma dificuldade para a operabilidade sintática. Catalogação de livros junto com a catalogação de objetos, por exemplo. Outra coisa importante é pensar no público. O usuário não está interessado se o documento está num determinado fundo. Ele está interessado no documento. Isso vai obrigar os arquivos a reverem seus critérios de catalogação – prevê Carlos Henrique Marcondes. – Esses padrões não são intocáveis. Devem sofrer reformulações de acordo com novas questões que se colocam. Tem que se pensar no que se ganha e no que se perde em troca. Não existe um paraíso.

Dalton acrescentou: 

– A internet é um reflexo da atividade humana. Precisamos de uma estratégia. Antes, tem que ter políticas de governança. Sem isso, trabalhar com dados é como jogar um monte de comida no liquidificador e bater. A tecnologia é só mais um elemento.

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Confira a cobertura dos outros dias de evento:

Difusão de acervos

Curadoria digital

Acervos e documentos

Humanidades digitais


Luiz H. Romanholli

Jornalista formado pela Escola de Comunicação da UFRJ, foi repórter e subeditor do caderno de cultura do Globo (RJ), além de editor-adjunto de Esportes e editor do suplemento de carros do mesmo jornal. Numa segunda passagem pelo Globo, exerceu a função de gerente de produtos, negócios e projetos especiais. Na Globo.com e TV Globo, foi gerente de conteúdo/editor-chefe dos sites GloboEsporte.com, Big Brother Brasil, Ego e dos programas de entretenimento da emissora (Projac). Na Memória da Eletricidade, é editor do site e consultor.