Preserva.Me 2020: Curadoria digital

Postado em 28/10/2020
Luiz H. Romanholli

Jornalista formado pela Escola de Comunicação da UFRJ, foi repórter e subeditor do caderno de cultura do Globo (RJ), além de editor-adjunto de Esportes e editor do suplemento de carros do mesmo jornal. Numa segunda passagem pelo Globo, exerceu a função de gerente de produtos, negócios e projetos especiais. Na Globo.com e TV Globo, foi gerente de conteúdo/editor-chefe dos sites GloboEsporte.com, Big Brother Brasil, Ego e dos programas de entretenimento da emissora (Projac). Na Memória da Eletricidade, é editor do site e consultor.

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A terça-feira, 27 de outubro, segundo dia da sexta edição do Encontro Internacional de Preservação e Memória, Preserva.Me 2020, foi dedicado ao tema “Curadoria digital”, dividido em dois painéis: "Do real ao digital: os desafios e práticas na difusão de conteúdos culturais no cenário atual" (na parte da manhã) e "AAREA: uma plataforma para experimentos artísticos online" (à tarde). No primeiro encontro, a historiadora da arte, curadora do Museu de Arte do Rio MAR e da Casa França-Brasil, Pollyana Quintella, e a pesquisadora, professora de arte contemporânea e curadora da Pinacoteca de São Paulo, Ana Maria Maia, falaram sobre as relações entre arte e comunicação e mostraram como os algoritmos exercem uma curadoria nas plataformas digitais. No segundo painel, os fundadores da plataforma digital aarea, Lívia Benedetti (curadora e pesquisadora de arte contemporânea), Marcela Vieira (tradutora, editora e curadora) e Adriano Ferrari (desenvolvedor de tecnologia) contaram de sua experiência com arte feita exclusivamente para internet. 

O Preserva.Me 2020 tem como tema da sua 6ª edição “Memórias digitais: ações de preservação e difusão de acervos”. O evento acontece entre os dias 26 e 30 de outubro, apresentando 9 painéis que abordam 5 pilares temáticos, divididos por cada dia do evento: "Difusão de acervos", "Curadoria digital", "Acervos e documentos", "Humanidades digitais" e "Integração de acervos". Em decorrência do isolamento social imposto pelo surto do coronavírus, pela primeira vez, o Preserva.Me acontece inteiramente on-line, sem evento presencial. Os painéis podem ser acompanhados pelo canal da Memória da Eletricidade no Youtube.

Cadastre-se no site e assista ao vídeo da íntegra do painel "Do real ao digital: os desafios e práticas na difusão de conteúdos culturais no cenário atual", com Ana Maria Maia e Pollyana Quintella:


Primeiro Painel: "Do real ao digital: os desafios e práticas na difusão de conteúdos culturais no cenário atual"

Em sua exposição, Ana Maria Maia fez um breve histórico de marcos de difusão da arte. A pesquisadora mostrou exemplos de conceitos e práticas que relacionam arte, comunicação e informação. Do artista alemão Joseph Beuys e suas ideias sobre arte-veículo ("o artista tem que abrir bem a boca"), passando por Cildo Meireles e sua prática de inserção de obras em circuitos ideológicos até Gisele Vasconcelos, artista carioca que desenvolve o conceito de ideia-vírus. 

– Muitas vezes, olhar retrospectivamente ajuda a gente a pensar e agir prospectivamente. Arte e comunicação têm pontos de interseção. Arte também é comunicação, mas pode desafiar a lógica da comunicação estabelecida na sociedade – disse Ama Maria Maia. – No caso da Gisele Vasconcelos, ela trabalha com uma ideia interessante, a de que cabe ao artista se pensar como um vírus ou um parasita, que tem o código da doença, mas que precisa de um corpo para se desenvolver. Artista é vírus e, na sua estrutura pequena, tem que se alojar numa estrutura maior. Precisa saber atuar estrategicamente, se alojar em hospedeiros que têm grande alcance e conseguem falar com outros públicos.

A pesquisadora exibiu ainda casos de artistas que, desde a década de 1970, vêm interferindo em jornais, revistas e TVs, recriando uma linguagem própria a partir de notícias, borrando os limites entre realidade e ficção. Temas como fake news já eram propostos naquela época:

– Fiz uma viagem pelo tempo e mostrei jornais, TV e cheguei à internet, que é o tema do nosso debate. Enfrentamento entre arte e veículo de comunicação sempre existiu, é a tônica, está no DNA do fazer artístico e das práticas de curadoria.

Durante a pandemia, cursos on-line ganharam força

Sobre este momento da pandemia, que forçou as pessoas a se tornarem ainda mais conectadas, Ana Maria Maia enxerga avanços importantes:

– Por exemplo, a área de cursos da Pinacoteca teve uma série de ganhos com a versão on-line, criada a partir do surto de Covid. Claro que há perdas num curso de arte não presencial. Mas, por exemplo, estamos superando fronteiras geográficas num país de dimensões continentais. Pessoas que não poderiam viajar de suas cidades para São Paulo podem participar remotamente.

Pollyana Quintella, em sua apresentação, chamou a difusão de arte no meio digital de "pauta quente": 

– Principalmente a partir da eclosão da pandemia no Brasil. A gente que compõe essa cadeia da arte está tentando entender o modo de veicular o conteúdo da arte no digital. Acompanhamos uma série de experiência de mostras virtuais e simulações 3D. O que dá certo, o que não dá. E é impressionante constatar o quanto essa conversa andou de março para cá – constatou.

Para a especialista em história da arte, é importante discutir a diferença entre uma obra física que migra para o digital e uma obra que nasce para o digital. Pollyana Quintella apresentou dados da pesquisa TIC Cultura, realizado em 2018 pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), entidade do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br). Segundo a TIC (sigla para tecnologias de informação e comunicação), apenas 15% das instituições de arte do país, como museus e galerias, disponibilizam seu conteúdo na internet e só 26% dispõem de site próprio.

– Trabalhar nessa cadeia da arte no Brasil é lidar com a precariedade. Orçamentos baixo e profissionais não treinados para lidar com esses novos formatos, um contexto complexo – disse Pollyana.

Algoritmos e curadoria: um tema quente

Mas o tema principal do debate da segunda manhã do Preserva.Me 2018, mediado por Ana Paula Goulart, curadora do Memória de Eletricidade, se deu em torno dos algoritmos e seu papel nos processos de veiculação de acervo de arte em plataformas digitais.

– Queria que a gente pensasse numa expressão curiosa: curadoria de algoritmo. O trabalho realizado pelos algoritmos é um trabalho de curadoria digital. Mas algoritmos não pensam. Eles, obviamente, são orientados por pessoas. O que a curadoria ensina aos algoritmos e o que estes ensinam de volta? – questionou Pollyana Quintella. – Algoritmos buscam soluções para determinados problemas. Estamos familiarizados com isso em redes sociais, sites de compras e streaming. Neste contexto atual de polarização política, os algoritmos desenvolveram o efeito de filtro bolha. Você só lida com o que a gente aprova. Vamos cada vez menos lidando com a diferença. 

As duas pesquisadoras lembraram que há hoje movimentos em vários setores sugerindo que as empresas digitais trabalhem com algoritmos abertos: 

– A gente opera por um design projetado por outra pessoa e navega numa pretensa neutralidade. Mas não conhecemos a arquitetura por trás – alertou Pollyana. – As ferramentas não têm um uso bom ou mau a priori. Tudo vai depender de como a gente vai se colocar diante dessas ferramentas, porque as máquinas estão delirando.

Tate Gallery de Londres e curadoria compartilhada

Como exemplo de boa prática, Pollyana Quintella citou o caso da Tate Gallery, de Londres, na Inglaterra:

– O site da Tate não dá acesso apenas à obra em si, mas também aos dados e à informação. Quem vai ao site da Tate, verá que ela organiza suas obras em categorias básicas, mas também em tags temáticas, por técnicas, gênero... Mais de mil tags, que permitem que o usuário e o público participem da curadoria.

Ana Maria Maia concorda com o questionamento sobre transparência, algoritmos e metadados: 

– Não é o algoritmo que veta a imagem de seios no Facebook. Que limites de liberdade e cerceamento de liberdade são esses, essa camada oculta, esse diálogo entre participantes da comunidade, os robôs e o trabalho humano por trás dos algoritmos?

Cadastre-se no site e assista ao vídeo da íntegra do painel " AAREA: uma plataforma para experimentos artísticos online", com Lívia Benedetti, Marcela Vieira e Adriano Ferrari:


Segundo painel: "AAREA: uma plataforma para experimentos artísticos online"

Qual o limite para a criatividade? A equipe do aarea, site especializado em artes plásticas, não tem a resposta, mas apresenta a internet como suporte para atender aos desejos dos artistas. Na tarde de terça-feira, 27 de outubro, em seu segundo painel, o Preserve.Me 2020 recebeu as idealizadoras do projeto, Lívia Benedetti e Marcela Vieira, e o programador e consultor de tecnologia Adriano Ferrari para contar como a empresa vem atuando no segmento de curadoria digital.

Durante o encontro, mediado pela historiadora da Memória da Eletricidade Bruna Martoni, Marcela Vieira explicou que, desde a abertura, em 2017, a aarea vem se firmando como uma plataforma de trabalhos de arte concebidos especialmente para a internet. Cada projeto permanece por um tempo determinado no ar. Quem entra no site interage apenas com a obra. A navegação se dá sem a interferência de textos, botões ou link. Quem quiser informação sobre o trabalho ou sobre o artista deve procurar nas redes sociais da instituição.

– Interessa muito à aarea esta diversidade de temas e de possibilidades que a internet traz em termos de tecnologia e de linguagem. A experiência que a gente tem agora só demonstra e comprova que temos um terreno inesgotável – constata Marcela Vieira. – A gente pode tanto seguir pelo caminho da crítica à internet, ao modo como vem sendo utilizada hoje, mas pode também trazer muita descoberta. É um caminho muito vasto, e as coisas podem começar a ser exploradas com um potencial incrível para fazer parcerias, criar impacto, trazer discussões novas, provocação. Isso depende muito da proposta do artista.

Cuidado para não corromper o desejo criativo

A proposta do artista, que deve ser convidado pelo site, é o ponto de partida de qualquer projeto. Adriano Ferreira compara a internet a uma caixa de ferramentas e vai além:

– A gente tem todo o cuidado de não corromper o desejo criativo. Temos como proposta usar a tecnologia como instrumento. 

Durante a exibição, o trio apresentou exemplos de recursos já utilizados. Ferramentas de geolocalização foram desenvolvidas para facilitar a leitura de um texto na tela. Em outro trabalho, eles acharam o caminho para que uma artista conseguisse reescrever uma peça de teatro com a intervenção do público, que tinha a possibilidade de participar presencialmente ou de forma virtual.

Recentemente, a “recuperação” de um poema de Augusto de Campos destacou o compromisso da aarea com a conservação de acervos. O trabalho "Change Word" corria o risco de desaparecer porque até o fim do ano deve sair do ar programa que possibilitou o desenvolvimento da obra, em 2006. Mas o projeto foi refeito e chegou a ser exibido em setembro no site.  

Seja no lançamento ou na manutenção dos trabalhos, Lívia Benedetti explicou que a aarea se preocupa com preservação da intenção do artista:

– A gente sabe o que o artista gostaria que aparecesse. Mas tem o por trás, a parte que aarea tem que se ocupar mesmo. Uma tarefa trabalhosa, os softwares se atualizam, perdem versões...

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Confira a cobertura dos outros dias de evento:

Difusão de acervos

Acervos e documentos

Humanidades digitais

Integração de acervos

Luiz H. Romanholli

Jornalista formado pela Escola de Comunicação da UFRJ, foi repórter e subeditor do caderno de cultura do Globo (RJ), além de editor-adjunto de Esportes e editor do suplemento de carros do mesmo jornal. Numa segunda passagem pelo Globo, exerceu a função de gerente de produtos, negócios e projetos especiais. Na Globo.com e TV Globo, foi gerente de conteúdo/editor-chefe dos sites GloboEsporte.com, Big Brother Brasil, Ego e dos programas de entretenimento da emissora (Projac). Na Memória da Eletricidade, é editor do site e consultor.