Cem anos de Mario Bhering

Postado em 24/05/2022
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Mario Bhering, Crédito: Acervo da Família Bhering

Uma das personalidades mais importantes para o desenvolvimento do setor elétrico do Brasil, Mario Penna Bhering completaria 100 anos neste dia 24 de maio. Mineiro de Belo Horizonte, engenheiro de formação, Bhering foi diretor comercial, vice-presidente e presidente da Cemig, diretor de Furnas, presidente da Eletrobras (em duas oportunidades) e presidente da Memória da Eletricidade, da qual foi um dos principais idealizadores. Também foi um dos principais idealizadores do empreendimento binacional de Itaipu, tendo participado dos entendimentos que culminaram com a assinatura do Tratado de Itaipu pelos governos do Brasil e do Paraguai, em abril de 1973, e a constituição da Itaipu Binacional, em maio do ano seguinte. Bhering era, antes de tudo, um humanista: amante das artes, gestor cuidadoso e um líder preocupado com a equipe e as questões ambientais. Para celebrar a data, a Memória da Eletricidade conversou com uma das filhas de Mario Bhering. Historiadora e bibliotecária, Cecilia Bhering foi gerente da biblioteca de Cemig por dez anos. Coordenou os projetos socioculturais na companhia até se aposentar, em 2013. Atualmente é consultora do Museu Mineiro. Na entrevista, Cecilia contou um pouco da história, da formação, da visão de mundo e da intimidade do primeiro presidente da Memória da Eletricidade.

Cecilia Bhering. Crédito: Acervo da Família Bhering

MEMÓRIA DA ELETRICIDADE: Mario Bhering, seu pai, é uma das personalidades mais importantes para o desenvolvimento do setor energético do Brasil, tendo participação decisiva em marcos como a criação da Eletrobras e a construção de Itaipu. Conte um pouco como foi sua convivência com ele. Como era Mario Bhering na intimidade?

CECILIA BHERING: Papai era um homem sereno e alegre. Não era muito presente, pois estava, na maior parte da nossa infância e adolescência, trabalhando e construindo a sua carreira e as bases das empresas do setor elétrico. Mas quando estava em casa, era um pai muito interessante. Um pai de muitos livros e histórias, música clássica e belos desenhos. Ele sempre nos ensinou a olhar para as estrelas, admirar o céu, o que confere a qualquer um o senso de humildade diante do universo. Adorava o mar, tema recorrente de suas aquarelas. Era um mineiro com coração carioca. Morou no Rio durante a infância e aprendeu a nadar em Ipanema. Depois se mudou para o bairro, onde morou por mais de 25 anos, quando esteve à frente da Eletrobras, da Memória da Eletricidade e do Conselho da Itaipu. Era pragmático com a engenharia, mas os livros, os objetos trazidos das viagens pelo o mundo e as conversas no mundo feminino de sua mulher, filhas e netas, sempre sugeriram que a imaginação deveria estar presente em cada plano, desejo, na forma de viver a vida. A criatividade e sua facilidade de conversar e conviver o fizeram um ótimo gestor. Não tinha preconceitos. Nos ensinou que todas as pessoas eram iguais e todas terráqueas. A nacionalidade era o planeta e suas possibilidades. Tinha amigos influentes, amigas, companheiros de pescaria nativos das beiras de rios e do mar, com quem aprendia sobre os ventos, os peixes e as águas. Pessoas de todas raças e credos e ele se definia ateu. Respeitava a sabedoria e o conhecimento acima de qualquer coisa. Seus irmãos foram bons amigos, sua irmã uma companheira de vinho, bons almoços e boas risadas. Casou-se apaixonado com minha mãe Betty, uma americana que ele conheceu em Milwaukee, onde foi negociar as turbinas da UHE de Salto Grande, MG, na gestão de JK. Ela era filha de europeus refugiados da Segunda Guerra Mundial e que, eventualmente, cantava no bar de suas irmãs. Uma história de cinema. Creio que isso dá uma visão intima do papai. Torcedor do América Mineiro e do Botafogo, jogador de vôlei, pescador, bom desenhista desde novo, o amante dos livros que me ensinou a ler Tolkien e me apresentou Lawrence Durrell, me presenteando com "O Quarteto de Alexandria" e com os contos de Poe, textos de Saramago e Guimarães Rosa.  

Mario Bhering com suas três filhas, Alida, Leticia e Cecilia (1962). Crédito: Acervo da Família Bhering

ME: Ao longo da sua longa trajetória profissional, Mario Bhering testemunhou diversas mudanças na política nacional e sempre se pautou pela ética. Neste sentido, como você vê o legado do seu pai?

CECILIA BHERING: Nas reviravoltas da política brasileira ele mantinha o foco na sua carreira. A criação da Cemig nos anos 50 e a construção de Três Marias foram desafios fascinantes para um jovem engenheiro. A ida para Eletrobras em 1967 tinha a promessa de planos de desenvolvimento com financiamento certo assegurada pela ditadura militar. Durante esse período, ele trabalhou muito, realizou muito e solidificou a Eletrobras como uma grande e eficiente estatal. Mas havia questões de cunho ético e moral que levaram ao seu pedido de demissão, na gestão do General Geisel. Foi um período de angústia e de revisão de valores. Ele foi para iniciativa privada, trabalhou para o BID no Equador e no Peru, respirou e retornou ao Setor elétrico pelas mãos do amigo Tancredo Neves. Aí, a visão e o modelo de gestão eram outros. Dessa crise, tornou-se mais forte a consciência da importância da sustentabilidade nos empreendimentos do setor, pelo viés ambiental e também pelo social. Havia que se cuidar do meio ambiente, das populações do entorno das usinas. Era necessário que se investisse em pesquisa e inovação, e aí veio o Cepel. E havia que se preservar o conhecimento dos técnicos, pesquisadores e gestores do setor, que poderia perder sua excelência em outro desastre histórico. Daí, veio a Memória da Eletricidade.

Mario e Betty June Bhering, em Milwaukee, Wisconsin (1947).Crédito: Acervo da Família Bhering

ME: Principalmente a partir dos anos 80, a questão ambiental passou a ser um tema fundamental na gestão de Mario Bhering à frente da Eletrobras. Essa era uma preocupação recorrente do seu pai?

CECILIA BHERING: A questão ambiental estava presente em sua vida, na medida em que está na das pessoas que amam o planeta, reconhecem a riqueza natural do Brasil e trabalham com uma atividade de impacto. Papai, como pescador conhecia os rios e o pantanal. Conheceu a Amazônia e sabia do quanto tudo isso precisava ser preservado para o futuro. Um futuro que ele sempre pensou na proporção de décadas e séculos, pois lia sobre as galáxias, a idade do sol, o cosmos. Quem tem o sistema universal na cabeça, não se furta a essa responsabilidade. Além disso, ele trabalhava com a matriz água e, ao construir represas, agredia o entorno dos rios, atingindo comunidades, fauna, flora e cultura locais. O modelo criado na Cemig em 1983, com a Unidade de Preservação permanente de Peti, foi pioneira no setor elétrico e, a partir dai, a política ambiental da Cemig só cresceu e se aprimorou. Os resgates de animais e plantas, os resgates de patrimônio material e imaterial, a reconstrução das cidades alagadas, os programas de educação ambiental para milhares de jovens estudantes levaram as empresas do Setor Elétrico a participarem e serem líderes de índices de sustentabilidade nas maiores bolsas de valores do mundo, Dow Jones, as bolsas de Tóquio e de Madri e a Bovespa. O período entre 1990 e 2010 foram os anos de ouro da política ambiental do Brasil. Foi o marco da obrigatoriedade dos balanços sociais em paridade com os balanços financeiros anuais. As ações de sustentabilidade saíram da coluna de despesa para coluna de investimento nas demonstrações contábeis. Ele viu o início da queda dessa era de consciência e progresso sustentável. Graças a Deus não viu a aniquilação.

Mario Bhering (à esquerda) e o presidente Juscelino Kubitschek nas obras da Usina Hidrelétrica de Salto Grande/Cemig (1957). Crédito: Acervo da Família Bhering

ME: Mario Bhering também foi o principal idealizador e primeiro presidente da Memória da Eletricidade. Fale um pouco da importância da preservação da história do setor e da importância da memória empresarial para a sociedade.

CECILIA BHERING: O respeito pelo conhecimento é uma característica das civilizações mais interessantes do mundo. Papai acreditava, assim como muitos de nós, que a memória das empresas conta também a história do país. Das evoluções tecnológicas, dos tempos de crises e sua gestão, dos acordos diplomáticos, como no caso de Itaipu. A Memória da Eletricidade, assim como as bibliotecas e outros centros de educação permanente, são entidades de apoio as pesquisas e também fórum de reflexão e discussão. O setor elétrico brasileiro foi concebido para ter uma operação interligada. O GCOI permitia que os estados que não geravam energia, pudessem comprar através da transmissão e distribuição. Era, desde o princípio, um modelo estatal de cooperação. Não vou questionar a validade desse modelo, mas a Memória permitiu, por vários anos, a troca de informações técnicas entre as concessionárias de energia. Documentou as mudanças de matriz, como gás, solar, eólica e as térmicas e atômicas. Tudo isso é a história do desenvolvimento econômico brasileiro. Hoje, é uma felicidade ver a Memória permanecer discutindo as tendências e as crises, como a pandemia, por exemplo. Continuou um fórum cada vez mais rico. A revista "Comunicação & Memória", é hoje uma das melhores publicações nacionais de reflexão sobre a informação, a cultura e a gestão do conhecimento. De onde ele estiver, papai deve sentir um orgulho e uma admiração imensa por vocês.

 "Espírito Santo". Aquarela de Mário Bhering (1975). Crédito: Acervo da Família Bhering

ME: O senso comum costuma separar "homens de exatas" de artistas e profissionais de ciências humanas. Mas Mario Bhering, um engenheiro, era também um amante das artes, aquarelista talentoso e homem sensível. Na convivência com seu pai, como entrava o amor às artes?  

CECILIA BHERING: Acho que o papai era um engenheiro que iniciou seu amor as artes antes de entrar numa faculdade. O fato dos seus pais serem ambos universitários e de terem bibliotecas em casa foi determinante. As irmãs da minha avó tocavam piano e violino, tinham quadros em casa, pintavam. Todos os irmãos do papai desenhavam. Essa é uma bagagem para a vida. Paralelamente à engenharia, ele continuou desenhando e lendo. Ilustrou a nanquim as batalhas da Segunda Guerra noticiadas no rádio e desenhava os livros de Júlio Verne. Depois ele realmente se dedicou à aquarela. Fez cursos nos EUA com o John Pike, ficou amigo de artistas como a Fayga Ostrower, Renina Katz e o mineiro Inimá de Paula. Montou uma biblioteca de livros de arte e inaugurou galerias nos prédios da Cemig e de Furnas, esta junto com o John Cotrim. Fez exposições, vendeu aquarelas, mas nunca encarou a pintura sob o aspecto comercial. Dava as aquarelas de presente. Minha filha Barbara escolheu a carreira de fotografa, pois aprendeu no colo dele a observar a luz, as cores e contrastes. Queria muito que ele visse as fotos dela. Mas, enfim, é notória a diferença de um gestor público culto, que considera a riqueza das artes e da educação. Ele pode realizar muito mais pela sua área de atuação do que um profissional restrito a um só curso que mede o sucesso por índices de qualidade total. Ferramenta que eu acho um descalabro para a criatividade num país como o Brasil, que demanda muitas vezes soluções absurdas.

"Estação Abandonada", MG. Aquarela de Mário Bhering (1994). Crédito: Acervo da Família Bhering

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