Como as efemérides consolidam o legado do setor elétrico brasileiro

Na Memória da Eletricidade, datas comemorativas se tornam projetos de valorização da memória empresarial
19/01/2026

Projetos ‘Eletrobras 60 anos’ e ‘100 anos de Mário Bhering’ celebram efemérides do setor elétrico. Foto: Gabriel Rechenioti / Acervo Memória da Eletricidade

A história é formada por conjuntos de diversos acontecimentos. Alguns são mais importantes do que outros. Certos fatos, considerados de grande relevância, são lembrados por décadas e séculos à frente, constituem as chamadas efemérides. No Brasil, datas como a Independência, em 7 de setembro de 1822; a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889; a Abolição da Escravidão, em 13 de maio de 1888; e a Semana de Arte Moderna, em fevereiro de 1922, figuram entre as principais efemérides – ou datas comemorativas – por representarem marcos de mudanças políticas, sociais e culturais do país. Essas e outras diversas datas que integram o calendário anual têm uma função em comum: são ferramentas de construção de memória. Os países, em seus processos de formação, destacaram e celebraram os principais acontecimentos de sua história, tradição que permanece até a atualidade.

“As efemérides são instrumentos de memória poderosos que resgatam momentos celebrativos e conferem sentido e legitimidade ao passado. Por isso, elas se tornaram ferramentas importantes para diferentes grupos e agentes históricos, que as utilizam para reforçar seus pontos de vista, legitimar posições ou dar novos significados a certos eventos e símbolos. A escolha de uma efeméride é, na prática, a escolha do que se comemora, e, em contrapartida, do que se deixa de lado. Por meio de festas, feriados, homenagens e campanhas, elas criam um tempo social compartilhado, que aproxima as pessoas e reforça laços de pertencimento, consolidando um sentimento de continuidade histórica”, explica Gabriel  Vabo, historiador e arquivista da Memória da Eletricidade.

Para além das esferas nacional, estadual e municipal, a consolidação e celebração de efemérides também são práticas recorrentes no meio corporativo. Empresas costumam instituir suas próprias datas comemorativas, seja a de fundação, a de lançamento de um produto marcante, a de início de um projeto de impacto social ou a de conquista de uma certificação relevante. A pesquisadora Ruth Levy explica que a solenidade funcionou como um inventário de tudo o que estava acontecendo no Brasil: “O grande foco era mostrar para o mundo em que pé nós estávamos em termos de ‘civilização’, em que pé nossas cidades estavam em termos de serem cosmopolitas… Havia uma ideia determinista e evolucionista muito forte, no sentido de que as nações vão evoluindo até o momento em que elas chegam na ‘idade do progresso’ e devem apresentar isso. Então, tinha esse caráter de provar que estávamos prontos para concorrer com os países mais desenvolvidos”.

Efemérides no Setor Elétrico Brasileiro

A própria história do setor elétrico brasileiro também é marcada por efemérides estruturantes, que ajudam a compreender a formação e a evolução da infraestrutura nacional. Em 1883, por exemplo, a cidade de Campos dos Goytacazes (RJ) inaugurou a primeira iluminação elétrica pública do Brasil e da América Latina, marco frequentemente lembrado como o início oficial da eletrificação no país. Décadas depois, em 1945, a criação da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf) – hoje integrada à  Axia  Energia, antiga Eletrobras – se tornou um divisor de águas para o desenvolvimento do Nordeste, ao ampliar a capacidade energética da região. Já em 1962, a fundação da então Eletrobras consolidou uma política energética nacional mais integrada, reforçando o papel da estatal na coordenação e expansão do setor. Esses marcos históricos ajudam a explicar por que, no presente, as datas comemorativas continuam ocupando um lugar relevante no setor.

Quando o número do aniversário é redondo, a celebração costuma ganhar ainda mais peso. Além dos eventos e festas que reúnem os colaboradores, as empresas aproveitam esses marcos para lançar iniciativas internas e criar ações de integração com a comunidade. Iniciativas estruturantes também podem ser colocadas em prática, como programas de inovação, revitalização de instalações e até ações dedicadas à preservação da própria trajetória.

É nesta última que a Memória da Eletricidade se especializa, com capacidade de eternizar as histórias das empresas de formas  multimidiáticas, resultando em livros, exposições, gestão de acervo, gestão documental e programas de História Oral.

Conforme  Vabo  explica, no âmbito corporativo, as efemérides são utilizadas para fortalecer a reputação das empresas, destacando valores de tradição, expertise, estabilidade e solidez institucional. “Elas ajudam a construir uma narrativa de continuidade e confiança, reforçando o vínculo da marca com seu público interno e externo, além de consolidar uma cultura organizacional sólida, baseada em valores e aprendizados reais”.

Marcos que geram legado 

Dois dos projetos especiais da Memória da Eletricidade partiram de datas importantes: o que comemorou os 60 anos da então Eletrobras, hoje  Axia  Energia, e o que homenageou o centenário de Mário Bhering, quarto presidente da holding e fundador da Memória da Eletricidade.

No primeiro, a instituição foi responsável pela produção do livro “ Eletrobras 60 anos ” e da exposição virtual de mesmo nome, que demandaram uma vasta pesquisa sobre toda a trajetória de inovação e pioneirismo da empresa. O projeto “ 100 anos de Mário Bhering ”, por sua vez, incluiu o lançamento de um livro de arte com mais de 40 aquarelas de autoria do engenheiro – e artista nas horas vagas –, um documentário com entrevistas e depoimentos de importantes nomes do setor sobre a trajetória de Bhering e uma exposição virtual com 59 pinturas.

Troféus da quarta edição do Prêmio Mário Bhering, realizado junto ao lançamento do projeto do centenário. Foto: Marcus Knoedt / Acervo Memória da Eletricidade

Parte dos Programas de História Oral seguem o mesmo padrão, como o de 35 anos do Cepel (2009), o do Centenário da Light (2005), o de 40 anos da Eletrosul (2008) e o de 50 anos da Eletrobras (2012). A partir de entrevistas, a iniciativa busca iluminar e aprofundar aspectos sobre determinada realidade, sejam padrões culturais, estruturas sociais, processos históricos e até laços do cotidiano. Resgata informações guardadas nas lembranças do depoente que ajudam a compreender contextos específicos e até a abrir novas perspectivas.

No âmbito do setor elétrico, a História Oral coleta depoimentos de colaboradores e stakeholders, humaniza a trajetória da empresa e aumenta o engajamento com seus valores e identidade, o que também pode resultar em produtos institucionais. Por valorizar as experiências e visões de cada entrevistado, o método pode revelar informações além das que estão nos documentos usuais com os quais o historiador trabalha, além de carregar subjetividade.

Altino Ventura Filho, ex-presidente da Eletrobras, durante depoimento para o Programa de História Oral da Memória da Eletricidade. Foto: Arthur Baptista | Acervo Memória da Eletricidade

“Nos últimos anos, muitas organizações têm repensado a forma como utilizam as efemérides corporativas. Por muito tempo, valorizavam apenas a alta gestão, reproduzindo hierarquias e deixando de lado a diversidade de vozes que compõem a instituição. Já hoje, busca-se celebrar marcos que envolvem toda a empresa, reconhecendo trajetórias individuais e coletivas, e valorizando colaboradores de diferentes áreas e níveis. Assim, as efemérides deixam de ser apenas um instrumento de autopromoção institucional e se tornam uma ferramenta de engajamento, pertencimento e fortalecimento da cultura organizacional”, destaca  Vabo.