A iluminação como símbolo de inovação e desenvolvimento na Exposição Nacional de 1908

Memória da Eletricidade lançou mostra digital com fotos raras do evento; pesquisadora explica importância das luzes na ocasião
08/01/2026

Portão principal da Exposição Nacional de 1908 tinha oito mil lâmpadas incandescentes. Foto: Acervo Memória da Eletricidade

Entre os palácios e pavilhões construídos com arquitetura imponente da Exposição Nacional de 1908, um outro fator chamou a atenção de quem visitava o espetáculo, realizado na Urca, na Zona Sul do Rio de Janeiro: a iluminação pública. Com cerca de 25 mil lâmpadas elétricas, sendo 8 mil incandescentes e 30 de arco a vapor de mercúrio, a cenografia luminosa transformou a noite carioca em um palco de inovação para a época.

A Memória da Eletricidade inaugurou, em outubro de 2025, a sua segunda mostra, “A Exposição Nacional de 1908”, na plataforma Google Arts & Culture, que funciona como um grande museu virtual global. Por meio de fotografias raras disponíveis no acervo da instituição, o visitante mergulha na história do espetáculo, que celebrava o centenário da abertura dos portos do Brasil e buscava mostrar para os próprios brasileiros e para o mundo como o país estava desenvolvido nos ideais europeus de civilização.

A solenidade ocupou uma área de 182 mil m² e recebeu, entre agosto e novembro de 1908, mais de 1 milhão de visitantes. Esse tipo de celebração era comum no período. Os países as organizavam para divulgar seus respectivos progressos econômicos, e o Brasil participou de algumas antes de promover a de 1908, como a de Londres (1867), Filadélfia (1876) e Paris (1889).

A arquiteta e museóloga Ruth Levy, autora do livro “Entre palácios e pavilhões: a arquitetura efêmera da Exposição Nacional de 1908”, que estudou por anos a história e o legado da solenidade, explica que a iluminação fez com que o público ficasse deslumbrado.

“A Exposição de 1908 teve muito uma percepção de ‘como era possível ter aquela cidadezinha, construída à beira do mar, com aquela coisa feérica’. Tudo era muito iluminado. As 8 mil lâmpadas incandescentes ficavam todas na porta principal, além das outras tecnologias, como vapor de mercúrio”, destaca a pesquisadora.

Levy ressalta que, entre outros fatores, o investimento na iluminação foi conduzido devido a uma forma com que o país encontrou de fazer um “contraponto” com o passado colonial: “Era visto como um passado a ser superado, um passado de atraso. A escuridão propriamente dita era muito associada ao colonial e, agora, nessa era metropolitana, cosmopolita, você tinha essa inovação com a luz”.

Além da função decorativa, a eletricidade foi essencial para o funcionamento noturno dos pavilhões e equipamentos, como o Palácio dos Estados, Palácio das Indústrias e as representações estaduais, institucionais e culturais, como o Teatro João Caetano – depois reconstruído na Praça Tiradentes –, o prédio da Fábrica Bangu e o Pavilhão da Música.

Pavilhão da Fábrica Bangu, construída no estilo de uma mesquita. Foto: Acervo Memória da Eletricidade

A rede elétrica subterrânea da cidade do Rio, que abastecia, basicamente, só a região do Centro, foi expandida especialmente para o evento, até a Urca, o que conectou a exposição aos serviços urbanos da cidade, incluindo os bondes da Light, que facilitavam o acesso dos visitantes.

Para Levy, essas melhorias urbanas facilitaram o desenvolvimento do bairro que, posteriormente, viria a se tornar um dos mais valorizados do município: “Houve uma caminhada para lá, levando toda essa infraestrutura, o que facilitou com que depois viesse a empresa que loteou a Urca. É um caminho aberto que se deve à exposição, de criar esse outro vetor para o crescimento da cidade”, afirma.

Confira a mostra

Acesse “A Exposição Nacional de 1908”, percorra os núcleos e veja como 1908 ainda ilumina o nosso presente. Não se esqueça de seguir a Memória da Eletricidade na plataforma para acompanhar esse e outros lançamentos. Esta é a segunda mostra da instituição. A primeira, intitulada “Piabanha, um século de história”, apresenta uma narrativa visual inédita sobre a construção da Usina Hidrelétrica Alberto Torres, marco da eletrificação no estado do Rio.