A Exposição Nacional de 1908 e a arquitetura que revelou um Brasil moderno: uma conversa com Ruth Levy
Arquiteta e museóloga, Ruth Levy é autora do livro 'Entre palácios e pavilhões: a arquitetura efêmera da Exposição Nacional de 1908'. Foto: Gabriel Rechenioti / Acervo Memória da Eletricidade
“Eram mais de trinta prédios, todos construídos de uma forma
muito imponente. A entrada era, de fato, monumental, com uma porta de trinta
metros de largura. Depois, o visitante chegava em uma praça com quatro
pavilhões impressionantes: Distrito Federal, Bahia, Minas Gerais e São Paulo.
Tinha o teatro João Caetano, muito maior do que os das outras cidades do país.
No final, o Palácio da Indústria, enorme, com um castelo d’água. Fora a
variedade de estilos arquitetônicos: o prédio da Fábrica Bangu foi inspirado
numa mesquita; o Pavilhão da Música, em um templo egípcio; o de Santa Catarina
era um chalé feito com 150 tipos de madeiras diferentes... E a exposição
inteira conectada por um trenzinho que circulava com os passageiros e com uma
iluminação feérica. Então, era tudo muito fascinante”, descreve a arquiteta e
museóloga Ruth Levy, autora do livro Entre
palácios e pavilhões: a arquitetura efêmera da Exposição Nacional de
1908.
A Memória da Eletricidade inaugurou, no dia 16 de outubro de 2025, a sua segunda mostra, “A Exposição Nacional de 1908”, na plataforma Google Arts & Culture, que funciona como um grande museu virtual global. Por meio de fotografias raras disponíveis no acervo da instituição, o visitante mergulha na história do espetáculo que celebrava o centenário da abertura dos portos do Brasil e buscava mostrar para os próprios brasileiros e para o mundo como o país estava desenvolvido nos ideais europeus de civilização do período. Para entender ainda mais sobre o evento, a equipe conversou com Levy.
No decorrer do século XIX, surgiu a tradição entre os países de organizar exposições para divulgar seus respectivos progressos econômicos. O Brasil participou de algumas, como a de Londres (1867), Filadélfia (1876) e Paris (1889). No entanto, nestas ocasiões, as riquezas naturais do país sobressaíram entre todos os outros fatores. A partir disso, no início do século. XX, o governo federal sentiu confiança no desenvolvimento e decidiu promover a Primeira Exposição Nacional de 1908, na Praia Vermelha, no então desocupado bairro da Urca, no Rio de Janeiro. O espaço ocupado foi de 182 mil m² e, entre os dias 11 de agosto e 15 de novembro, recebeu mais de um milhão de pessoas.
A pesquisadora Ruth Levy explica que a solenidade funcionou como um inventário de tudo o que estava acontecendo no Brasil: “O grande foco era mostrar para o mundo em que pé nós estávamos em termos de ‘civilização’, em que pé nossas cidades estavam em termos de serem cosmopolitas... Havia uma ideia determinista e evolucionista muito forte, no sentido de que as nações vão evoluindo até o momento em que elas chegam na ‘idade do progresso’ e devem apresentar isso. Então, tinha esse caráter de provar que estávamos prontos para concorrer com os países mais desenvolvidos”.
Arquitetura imponente
Foram exibidos produtos agrícolas, industriais, pastoris e de artes liberais do Estado. No entanto, o que mais impressionou os estrangeiros e até os próprios brasileiros foi a arquitetura dos trinta edifícios, inspirada no estilo do ecletismo, caracterizado pela grandiosidade das construções, compostas por ornamentos ricos e luxuosos; mistura livre de diversos estilos arquitetônicos (neoclássico, barroco, renascentista etc.); uso intenso de decorações e detalhes nas fachadas, colunas, janelas e portas, entre outros fatores.
Para Levy, isso se deve, entre outros motivos, pela liberdade que os profissionais tinham para traçar os prédios de exposições, por eles durarem poucos meses. “As exposições têm arquiteturas produzidas para ter todo um aspecto de perenidade, de uma monumentalidade, e, ao mesmo tempo, são exemplares que vão durar poucos meses. Não é um edifício que vai precisar conviver no cenário urbano por décadas ou mais do que isso, então o autor pode ousar mais, e isso definitivamente aconteceu em 1908”, explicou.
As imagens do acervo da Memória da Eletricidade apresentadas na mostra destacam os dois principais palácios erguidos nos extremos da então avenida dos Estados, hoje avenida Pasteur: o Palácio dos Estados, formado por estandes, vitrines e áreas expositivas que retratavam o país, e o Palácio das Indústrias, que reunia manufaturas, inovações técnicas e bens industriais. Um corredor de 560 metros unia simbolicamente os dois monumentos e conduzia aos pavilhões destinados às representações estaduais, institucionais e culturais. Além dos espaços já citados por Ruth Levy, a mostra também apresenta registros de outras instalações, como as do Corpo de Bombeiros, dos Correios e da Sociedade Nacional de Agricultura.
Viabilização do desenvolvimento da Urca
Um dos legados deixados pela Exposição Nacional de 1908 foi, justamente, a abertura de caminhos que viabilizaram o desenvolvimento da Urca, hoje um dos bairros mais valorizados do Rio de Janeiro. De acordo com a pesquisadora, o evento levou infraestrutura a uma área então pouco habitada, com obras de aterro hidráulico e melhorias urbanas que prepararam o terreno para o futuro loteamento do bairro. “A exposição abriu esse novo vetor de crescimento para a cidade. Quando um lugar passa a ter eletricidade, transporte e acesso facilitado, naturalmente desperta interesse para novas construções”, explicou.
A iluminação também foi um dos fatores que mais impactou os visitantes, mas essa história receberá um tratamento à parte. “O resgate da memória é sempre muito importante para você viver o presente e projetar o futuro. Os relatórios que temos de como era o Brasil de 1908 é um retrato bem importante para a gente entender o momento, avaliar, de lá para cá, tudo o que aconteceu, e corrigir rumos. Acho que o passado serve muito para isso”, concluiu Ruth Levy.
Confira a exposição
Acesse “A Exposição Nacional de 1908”, percorra os núcleos e veja como 1908 ainda ilumina o nosso presente. Não se esqueça de seguir a Memória da Eletricidade na plataforma para acompanhar esse e outros lançamentos. Esta é a segunda mostra da instituição, a primeira, intitulada “Piabanha, um século de história”, apresenta uma narrativa visual inédita sobre a construção da Usina Hidrelétrica Alberto Torres, marco da eletrificação no estado do Rio.
