Diálogo dos museus de ciência com o público foi destaque no Preserva.Me 2018

Postado em 30/10/2018
Rayssa Dias

Jornalista pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), possui cursos e experiência profissional em comunicação empresarial, nos segmentos de produção de conteúdo e assessoria de imprensa. Na Memória da Eletricidade é responsável por intermediar o relacionamento da instituição com a mídia, cobrir eventos, planejar e desenvolver conteúdos.

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A importância do diálogo com o público, seja por meio do investimento na interatividade das exposições ou do desenvolvimento de processos de curadoria compartilhada (ou cocuradoria) foi tema constante nos debates do Preserva.Me 2018, realizado pela Memória da Eletricidade nos dias 25 e 26 de outubro, no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro. Outro ponto abordado pela maior parte dos onze palestrantes do evento foi a necessidade de que, juntamente com a preservação da memória, missão tradicional dessas instituições, os museus sejam centros de divulgação científica e tecnológica.

O último ponto foi destacado logo na abertura do evento pelo presidente da Memória da Eletricidade, Augusto Rodrigues. “Um dos desafios das instituições de preservação histórica é transcender o objetivo da recuperação e conservação, buscando também a disseminação concomitante desse conhecimento”, afirmou o executivo.

Exemplos desse caminho não faltaram durante o Preserva.Me 2018, embora as abordagens das instituições sejam diferentes. Assim, a alta tecnologia do Museu do Amanhã, apresentada pelo seu diretor de desenvolvimento científico, Alfredo Tolmasquim, utiliza inteligência artificial para permitir que o visitante interaja com o conteúdo. Com a ideia de futuro no nome, os profissionais do Museu do Amanhã têm consciência de que, para a falar sobre o que virá, é fundamental saber o que passou. “O Museu do Amanhã trabalha com cenários de futuro e é preciso conhecer o passado para falar desses cenários no hoje, que é o lugar em que passado e futuro se conjugam, se encontram”, disse Tolmasquim.

Diálogo aberto com as crianças

Dois dos principais palestrantes do Preserva.Me 2018, os canadenses Anna Adamek e Shane Patey, pesquisadores da Ingenium, também apresentaram suas experiências na troca de informações com o público em torno do tema energia. Para entender o que os visitantes querem ver nos museus administrados pela Ingenium – organização que cuida de dois outros museus, além do dedicado à Energia –, são usados desde pedidos de sugestões, por meio da internet, até conversas diretas com representantes de grupos específicos, como as populações indígenas canadenses.

Linha semelhante segue o Espaço Ciência Viva, localizado no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro. Segundo o diretor da instituição, Miguel Sette e Câmara, ela surgiu há 35 anos já com a ideia de trabalhar com as dúvidas das pessoas. “Há 30 anos, fizemos um trabalho com a comunidade do morro do Salgueiro, que nos pediu para estudar uma questão fundamental para ela, que era a poluição da água que saía das caixas d’água espalhadas pelo morro”, contou. Essa abordagem é a linha mestra do Espaço, especialmente quando trata do seu público principal. “As crianças são as que expressam mais facilmente as dúvidas que possuem”, disse o educador.

Divulgar a ciência, porém, não é algo fácil, admite a produtora cultural Luciane Simões, da Casa da Ciência, da UFRJ, que falou sobre a experiência da instituição no assunto. “Não é fácil, mas fica menos difícil se tivermos a humildade de reconhecer que todo o conhecimento pode e deve ser divulgado”, afirmou Luciane, para quem a missão da divulgação da ciência é tirar o conhecimento dos centros onde é produzido para levá-lo à população. “Assim podemos transformar a vida das pessoas, principalmente das crianças”, explicou a produtora cultural.

É justamente o trabalho com crianças e jovens o foco da Fundação Cultural Ormeo Junqueira Botelho. Para entender o que seu público deseja, a entidade faz exposições itinerantes – levadas por caminhão adaptado a escolas – e visitas à sede do Museu Energisa, localizado em Leopoldina, Zona da Mata de Minas Gerais. As iniciativas da Fundação – instituição premiada na segunda edição do Prêmio Mario Bhering de Preservação de Memória – foram apresentadas no Preserva.Me 2018 por seu coordenador cultural, Marco Andrade.

Objetos que ajudam a entender as relações sociais

Uma dificuldade com que se defrontam aqueles que se dedicam a divulgar ciência é a de que os objetos científicos e tecnológicos – como os que se referem à eletricidade – sejam entendidos como passíveis de fazerem parte de museus. Essa possibilidade é essencial, segundo o museólogo Márcio Rangel, do Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast), para o entendimento do papel da ciência e tecnologia na história do ser humano. “Os objetos científicos e tecnológicos, como os que se referem à eletricidade, são indícios de como essa parte do conhecimento transformou a nossa qualidade de vida e ajudaram a criar o mundo como o conhecemos hoje”, explicou.

Essa relação entre a tecnologia e a sociedade é o lugar que ocupa a eletricidade no acervo do Museu Histórico Nacional, instituição mais conhecida pela exibição de objetos cuja referência são a Colônia e o Império, segundo seu diretor Paulo Knauss. “Os objetos do Século XX, o que inclui os elétricos, são usados como forma de discutirmos as relações sociais que representam, como as de gênero e relações sociais, por exemplo”, disse o diretor do MHN.

A última palestra do Preserva.Me 2018, ministrada por Simone Flores Monteiro, do Museu de Ciências e Tecnologia da PUCRS, trouxe um tema que envolve todos os museus de ciência e tecnologia: as políticas públicas para a área. Coordenadora de projetos museológicos, Simone mostrou como a instituição gaúcha adaptou as diretrizes gerais do governo federal à sua realidade. Um ponto que chamou a atenção foi a maneira pela qual o museu gera receitas: a entidade aluga parte de suas instalações para a realização de festas particulares e também promove oficinas e cursos pagos.

O Preserva.Me, que na edição deste ano foi patrocinado pela Eletrobras, é o principal evento técnico de preservação de memória do setor elétrico brasileiro, congregando profissionais e estudantes de museologia, arquivologia, biblioteconomia e história do setor. 

“O Museu Nacional não está morto porque o museu somos nós”

As palestras dos profissionais Museu Nacional, que, em 2 de setembro, teve seu prédio da Quinta da Boa Vista e grande parte do acervo destruídos por um incêndio, foram dos momentos mais aguardados do Preserva.Me 2018.

O diretor da instituição, Alexander Kellner, narrou a repercussão do incêndio na mídia – marcada pela falta de profundidade e desinformação, especialmente nas redes sociais – e entre os acadêmicos de todo o mundo, que se uniram numa corrente de solidariedade. Já as museólogas Thaís Mayumi e Fernanda Santos deram um panorama da situação do Museu e dos planos de recuperação do acervo. “Já choramos muito, e continuamos chorando às vezes, mas o Museu Nacional não está morto porque o museu somos nós”, disse Thaís, em sua emocionada, e muito aplaudida, palestra.