Do cuidado com o pai à invenção do chuveiro elétrico: a história de Francisco Canhos
Primeiros modelos do chuveiro elétrico "Robô", invenção de Francisco Canhos. Foto: Arquivo pessoal
O chuveiro elétrico faz parte da rotina de milhões de brasileiros. Segundo a Pesquisa de Posse e Hábitos de Uso de Equipamentos Elétricos na Classe Residencial (PPH), realizada pelo Procel em 2019, mais de 90% dos domicílios da Região Sul utilizam esse equipamento. No Sudeste, o índice é de aproximadamente 74%, enquanto no Centro-Oeste chega a quase 68%.
No início do século XX, para tomar banho quente, muitas pessoas ferviam a água no fogão, com panelas, chaleiras ou caldeiras, e transportavam até o banheiro. Não havia, no Brasil, um chuveiro que fornecesse água quente. No entanto, na década de 1930, o cenário começou a se transformar. Foi quando o brasileiro Francisco Canhos, morador do município de Jaú, no interior de São Paulo, inventou o chuveiro elétrico.
Tudo aconteceu porque o pai de Francisco sofria de reumatismo, o que o impedia de tomar banho gelado. Jovem, Francisco era responsável por esquentar a água para o pai. Em um desses dias, observou a mãe passando roupas com um ferro elétrico e percebeu que o aparelho produzia calor por meio de uma resistência. A observação despertou uma ideia: desmontou o equipamento, retirou a resistência e passou a experimentar formas de aquecer a água que chegava ao chuveiro.
Em entrevista à Memória da Eletricidade, Heraldo Leonoelli, genro de Francisco Canhos, relembra a trajetória do inventor brasileiro que criou o chuveiro elétrico e comandou uma fábrica em Jaú (SP).
“Depois de abrir o ferro, ele ligou a resistência, observou que ficava incandescente e começou a fazer experiências. Colocou a resistência na água e percebeu que ela aquecia rapidamente, como acontece com um ebulidor. Daí, começou a desenvolver a ideia. Colocou dentro de um tubo por onde passava a água e foi aperfeiçoando o sistema”, relembra Heraldo.
Este primeiro modelo, que passou a ser comercializado informalmente no município, no entanto, não era automático. O funcionamento ainda exigia uma operação manual. Primeiro, abria-se o registro para a passagem da água. Em seguida, acionava-se um seletor instalado na parede, semelhante a uma chave elétrica, responsável por ligar a resistência. Só então a água era aquecida.
A criação da Eletrometalúrgica Jauense
Francisco aprimorou o equipamento criando uma versão automatizada e, em 1943, passou a vendê-lo em larga escala. Surge aí a operação da fábrica Eletrometalúrgica Jauense. O primeiro equipamento era fabricado em alumínio fundido e as versões seguintes passaram a ser confeccionadas com outros materiais.
Outros modelos de chuveiros produzidos pela Eletrometalúrgica Jauense. Foto: Arquivo pessoal
“Quando lançou o modelo automático, ele batizou o equipamento de ‘Robô’, porque dizia que o chuveiro fazia tudo sozinho. Esse nome permaneceu até o fechamento da fábrica, que ficou 54 anos na cidade de Jaú e entre 1997 a 2019 operou em São José do Rio Preto (SP)”, explica Heraldo.
Segundo Heraldo, quando o chuveiro já tinha muito tempo de uso, os moradores de Jaú levavam até a fábrica para manutenção. “Trocava-se a resistência, alguma outra peça quando necessário, e o chuveiro voltava a funcionar por mais vinte ou trinta anos. Um dos ‘defeitos’ do produto era justamente demorar muito para estragar”, brinca.
Convivência de Heraldo e Francisco
Heraldo passou a trabalhar com o sogro na década de 1980, logo depois de se casar com a filha de Francisco. Na época, administrava um depósito de areia que abastecia as obras da construtora do pai, até que Francisco o viu descarregando um caminhão e fez o convite: “Venha trabalhar comigo. Isso não é vida para você”.
Francisco Canhos e Heraldo Leonoelli, ainda jovem. Foto: Arquivo pessoal
“Foi assim que comecei a trabalhar com ele. Viajávamos muito para São Paulo e eu frequentemente o acompanhava em reuniões. Nessas viagens, aproveitava para perguntar como ele tinha feito cada invenção, como tinha desenvolvido cada ideia. Foi um homem muito bem-sucedido e inventou muita coisa. Também tinha muita influência em Jaú, foi vereador e tinha até amizade com o ex-presidente Jânio Quadros”, conta Heraldo.
Francisco não tinha formação acadêmica, era autodidata. Para aperfeiçoar suas invenções, lia revistas técnicas, almanaques e livros. O inventor registrou patentes de outros diversos produtos elétricos como torradeiras, ventiladores, cafeteiras, fornos, fogões, entre outros. “Já que as vendas do chuveiro caíam no verão, ele buscava fabricar esses outros produtos para manter o funcionamento da fábrica durante o ano inteiro”, relata Heraldo.
Churrasqueira elétrica produzida pela Eletrometalúrgica Jauense. Foto: Arquivo pessoal
A patente do chuveiro elétrico permaneceu registrada em nome de Francisco até a década de 1950. Após sua expiração, outras empresas passaram a produzir chuveiros elétricos, entre elas a Lorenzetti, que se consolidou como uma das principais fabricantes do país. “Ele registrou tudo e havia documentação, mas parte desse material acabou se perdendo com o passar dos anos, principalmente depois de uma crise financeira que ele enfrentou”, explica Heraldo.
Para além da fábrica e das invenções, o inventor gostava de Carnaval. Criava atrações para os bailes de feriados nos clubes de Jaú, chegando a construir um boneco eletrificado com sistema de motores e fios, que realizava movimento articulado, algo bastante avançado para a década de 1940, além de também desenvolver carros alegóricos.
O último projeto que Francisco acompanhou foi o de um motor rotativo para automóveis, para o qual se reunia frequentemente com João Augusto Gurgel (1926 – 2009), engenheiro paulista fundador da Gurgel Motores, montadora nacional que desenvolveu o primeiro carro elétrico da América Latina. Francisco Canhos faleceu em 1988 aos 73 anos de idade.
Nove décadas depois, chuveiro elétrico segue na rotina dos brasileiros
Mais de nove décadas depois das primeiras experiências realizadas em Jaú, a invenção de Francisco Canhos continua presente no cotidiano do nosso país, sendo uma alternativa acessível e adaptada à realidade brasileira e popularizando o banho quente para diferentes camadas da população.
Essa história ajuda a compreender que a memória da eletricidade também é feita de pessoas, de gestos de cuidado e de soluções criadas para responder às necessidades diárias. Ao preservar relatos como este, a Memória da Eletricidade valoriza não apenas a trajetória de inventores e de suas tecnologias, mas também as histórias humanas que deram origem a transformações capazes de atravessar gerações e permanecer presentes, até hoje, na vida de milhões de brasileiros.
