Nas suas primeiras décadas, energia do Theatro Municipal do Rio era gerada por usina própria
Theatro Municipal do Rio, na região onde atualmente é a Cinelândia, em 1910. Foto: Marc Ferrez / Acervo IMS
O Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em suas primeiras décadas de funcionamento, gerava energia a partir de uma usina própria para a realização dos espetáculos e acomodação do público. Inaugurado em 1909, somando quase 130 anos em funcionamento, é um dos mais importantes teatros do Brasil.
O projeto surgiu a partir das pretensões de construir, no Rio de Janeiro, então capital federal, um teatro que pudesse ser sede da primeira companhia teatral brasileira nos moldes da Comédie Française (teatro nacional da França, fundado em 1680). A iniciativa avançou durante a Reforma Pereira Passos (1902-1906), que tinha como objetivo modernizar a cidade e transformá-la em uma “Paris Tropical”.
A obra começou em 1905 e foi considerada a mais avançada da reforma urbana, com 280 operários trabalhando em dois turnos durante quatro anos, de forma ininterrupta. Começou a operar com capacidade para 1.739 espectadores.
Nesse período, o Rio de Janeiro vivia um processo de eletrificação, conduzido pela The Rio de Janeiro Tramway, Light and Power, que viria a se tornar a Light, a partir de 1904, quando chegou na capital federal. Três anos depois, em 1907, a energia elétrica passou a abastecer definitivamente a cidade, impulsionando mudanças na iluminação urbana, nos hábitos da população e na mobilidade.
Conforme informado pelo Centro de Documentação da Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro (Cedoc/FTMRJ), o gerador de energia funcionava em um edifício anexo de três pavimentos, denominado “Usina”. Em um trecho do livro Theatro Municipal do Rio de Janeiro, de João do Rio (1913), cedido pelo Cedoc à Memória da Eletricidade, é descrito o funcionamento.
Registro da usina própria do Theatro Municipal do Rio, na década de 1970, antes da demolição. Foto: Acervo TMRJ
No térreo, ficava a central de energia elétrica, duas baterias e uma oficina. A central tinha três dínamos — gerador que transforma energia mecânica em elétrica de corrente contínua — de 230 volts, com capacidade de 93 killowatts cada um, acionados por três motores a petróleo, de 150 cavalos de potência cada, realizando 190 rotações por minuto.
A rede geral de distribuição da corrente elétrica era feita por um sistema de três fios. Existiam 15 circuitos geradores, sendo um para o restaurante, quatro para a caixa cênica, duas para a sala de espetáculos, uma para a instalação da ventilação, uma para a usina e seis de reserva. O teatro ainda contava com uma rede telefônica, para comunicação entre os setores, de um sistema de campainhas de alarme e de diversos relógios elétricos.
A administração do Theatro Municipal firma contrato com a Rio Light para fornecimento de energia em 1928. No entanto, o Cedoc não confirmou se a usina permaneceu em funcionamento até este ano.
Nesse intervalo, a programação do espaço era focada em grandes concertos, óperas e balés. Diversos artistas nacionais e internacionais de renome da época passaram pelo palco do Theatro Municipal, entre eles o compositor Pietro Mascagni; o bailarino Vaslav Nijinsky, um dos maiores da história da dança; o pianista Arthur Rubinstein; o compositor e maestro brasileiro Heitor Villa-Lobos; e o tenor Enrico Caruso.
A usina foi demolida na década de 1970, mas também não se sabe se ela operou até este período. Em celebração ao centenário, o Theatro Municipal passou por uma grande reforma, entre 2008 e 2010, com investimento de R$ 70 milhões. O foco foi em restaurar e modernizar o teatro, ao mesmo tempo em que buscava-se preservar e resgatar as suas principais características. Em 2026, comemora os seus 117 anos.
