Do óleo de baleia à energia renovável: a curiosa evolução da iluminação no Brasil
Aproximadamente metade do peso da baleia era convertido em óleo, resultando em uma média de 7.200 a 8 mil litros por animal. Foto: Reprodução
Em tempos em que o Brasil é considerado o terceiro maior produtor de energia renovável do mundo, com as fontes limpas — como hidrelétricas, solares e eólicas — formando mais de 70% da matriz de geração, é curioso pensar que o país já foi dependente da exploração de baleias para ter iluminação, principalmente durante o período colonial e início do império.
Historicamente, a baleia sempre foi um recurso econômico valorizado. Utilizava-se o toucinho, as barbatanas ou dentes, o espermacete, a carne, os tendões, a pele e os ossos como matéria-prima para diversos produtos. Mas o principal objetivo das atividades baleeiras no Brasil era a extração do óleo da gordura, conhecido como “azeite da terra” ou “azeite de peixe”, que passou a ser amplamente utilizado para iluminação.
Aproximadamente metade do peso da baleia era convertido em óleo, resultando em uma média de 7.200 a 8 mil litros por animal. Historiadores estimam que, entre os séculos XVI e XIX, 90% do óleo produzido era para consumo de iluminação. Lampiões abastecidos com o insumo eram responsáveis por iluminar as noites em diferentes espaços da vida colonial, desde residências mais afastadas até casas de misericórdia, quartéis, fortalezas, prédios administrativos e engenhos.
Nos engenhos de açúcar, especialmente na Bahia, a iluminação com óleo de baleia era indispensável para manter o trabalho durante a noite, sobretudo nos períodos de safra, quando a produção não podia ser interrompida.
Lampiões funcionavam com o ‘azeite de peixe’. Foto: Acervo Light
Óleo de baleias como propulsor da economia
Além da iluminação, o óleo também era aplicado de outras formas. Foi utilizado na lubrificação de engrenagens, na fabricação de velas, sabões, tintas, vernizes e até no preparo de couros. Em áreas portuárias e construções sujeitas à ação constante da umidade, resíduos do beneficiamento do óleo, conhecidos como borra ou gala-gala, eram incorporados a argamassas para aumentar a resistência à água.
Nas regiões produtoras de óleo, o abastecimento local era prioridade, garantindo o funcionamento de atividades civis e militares. O excedente era enviado principalmente para o Rio de Janeiro, centro administrativo do monopólio real da pesca da baleia, de onde seguia para outras partes da colônia e para Portugal. No Reino, o óleo abastecia saboarias, servia como combustível e ainda era reexportado para mercados como Castela, Açores e Madeira.
A importância econômica da atividade fez com que a caça às baleias se expandisse ao longo dos séculos. Na Bahia, a espécie mais capturada era a jubarte, enquanto no litoral sul, especialmente em Santa Catarina, predominava a caça à baleia-franca. A exploração transformou as armações baleeiras em polos produtivos relevantes para a ocupação do território e para o abastecimento energético da então colônia.
A chegada do petróleo e da eletricidade
Esse cenário começou a mudar na segunda metade do século XIX. Em 1859, a descoberta do petróleo na Pensilvânia, nos Estados Unidos, permitiu a produção em larga escala do querosene, combustível que passou a substituir gradualmente o óleo de baleia na iluminação. Poucas décadas depois, a popularização da iluminação elétrica acelerou ainda mais o declínio dessa atividade.
No Rio de Janeiro, o cenário começou a mudar no início do século XX, com as reformas conduzidas pelo prefeito Pereira Passos que redesenharam o Centro e com a chegada da Light, em 1905, com o objetivo de iniciar o processo de eletrificação da então capital federal.
A transição energética como parte da história da energia
Mais de um século depois da substituição do óleo de baleia pelo querosene e, posteriormente, pela eletricidade, o Brasil vive uma nova transformação em sua matriz energética. Atualmente, o país figura entre os líderes mundiais na geração de energia renovável. Segundo dados da Agência Internacional de Energia (IEA), a participação das fontes limpas na matriz elétrica brasileira está entre as mais elevadas do mundo, colocando o país em posição de destaque no cenário da transição energética global.
A trajetória da iluminação e da produção de energia no Brasil revela uma sucessão de mudanças tecnológicas que acompanharam as necessidades da sociedade ao longo dos séculos. Se no período colonial a luz dependia da exploração de recursos naturais como as baleias, hoje os investimentos estão voltados para fontes renováveis capazes de produzir energia com menor impacto ambiental. Essa evolução evidencia como a busca por soluções energéticas mais eficientes e sustentáveis continua moldando o desenvolvimento econômico e social do país.
Para saber mais
Para quem deseja conhecer mais sobre a transformação da iluminação e da infraestrutura urbana no Rio de Janeiro, a Memória da Eletricidade disponibiliza gratuitamente a exposição virtual "A energia que iluminou o cotidiano: imagens e memórias do Rio de Janeiro" na plataforma Google Arts & Culture. A mostra reúne fotografias históricas, documentos e relatos que retratam o processo de eletrificação da então capital federal, revelando como a chegada da energia elétrica modificou hábitos, espaços públicos e a vida cotidiana dos cariocas ao longo do século XX. O acesso é gratuito e pode ser realizado de qualquer lugar do mundo pela plataforma digital.
Referência:
COMERLATO, Fabiana. A baleia como recurso energético no Brasil. Disponível em: < https://nea.ufsc.br/files/2012/03/artigo_fabiana.pdf>. Acesso em: 30 maio 2026.