Preservação de acervos em tempos de mudanças climáticas: um desafio coletivo
Proteção de acervos exige combinação de boas práticas institucionais e apoio público. Foto: Acervo Memória da Eletricidade
As mudanças climáticas representam um dos maiores desafios da atualidade. Eventos extremos como enchentes, incêndios, secas prolongadas e ondas de calor afetam diretamente a vida das pessoas e colocam em risco o patrimônio cultural e ambiental. Arquivos, museus, bibliotecas e centros de memória estão entre os espaços mais vulneráveis a esses impactos.
Acervos guardam documentos, objetos e registros que sustentam o direito à memória, à informação e à identidade coletiva. Quando um acervo é danificado, a perda é irreversível, e não se limita ao valor material: trata-se de uma interrupção de narrativas sociais, científicas e culturais, com empobrecimento do debate público e do conhecimento disponível para as gerações futuras. Diante dessa realidade, a literatura especializada e a experiência recente de diferentes instituições apontam para a necessidade de uma mudança de postura: planejar, prevenir e agir de forma integrada para proteger o patrimônio cultural.
Como as mudanças climáticas afetam os acervos
O dano a um acervo raramente é causado apenas pelo evento climático; é resulta do da guarda, contra o tipo de ameaça, como chuva extrema, calor prolongado, incêndio e seus resíduos, o grau de exposição do edifício e das áreas de guarda, como locais baixos com histórico de alagamento ou infiltrações recorrente s, a sensibilidade dos suportes (papel, fotografia, mídias e materiais audiovisuais) e a capacidade institucional de resposta, que envolve rotinas, equipe preparada, plano de emergência e rede de apoio
Nem toda instituição consegue implantar plenamente controles ambientais avançados ou alcançar uma infraestrutura ideal. A inda assim, há medidas de alto impacto que podem ser priorizadas. Em geral, elas passam por reduzir a exposição à água e à umidade — evitando subsolos, elevando itens críticos e corrigindo infiltrações –, fortalecer a prevenção predial e organizar a resposta a emergências com responsabilidades claras e definição de prioridades de salvamento.
A adaptação ao novo regime climático também precisa considerar resiliência operacional e sustentabilidade. Controles ambientais muito rígidos podem elevar o consumo energético e aumentar a dependência de sistemas complexos que falham em momentos críticos. Por isso, quando possível, recomenda-se combinar estratégias passivas (vedação, isolamento, sombreamento e setorização), metas realistas de estabilidade, que r eduz em picos e oscilaçõe s, e rotinas de contingência, para que a preservação não dependa de um único recurso.
Além disso, preservar é garantir a capacidade de retomar o trabalho após um evento. Para isso, é importante manter inventário acessível e atualizado, protocolos para documentar danos e orientar decisões e uma rede mínima de apoio, incluindo contatos e fornecedores críticos e alternativas de salvaguarda temporária, além de estratégias de cópia e redundância q u ando aplicável.
A importância das políticas públicas para a preservação
A preservação em escala nacional não depende apenas de esforços institucionais isolados. Políticas públicas eficazes são decisivas para transformar a preservação em ação contínua e não apenas em resposta emergencial após grandes perdas. Entre seus elementos centrais estão o financiamento continuado (não apenas emergencial), diretrizes e responsabilidades claras, integração entre cultura, meio ambiente, educação e planejamento urbano, exigência e apoio à gestão de riscos e preparação para desastres, além do fortalecimento de redes colaborativas e infraestrutura compartilhada.
Quando o poder público, as instituições e a sociedade atuam de forma articulada, amplia-se a capacidade de prevenção, resposta e reconstrução e a preservação deixa de ser fragilizada por descontinuidade.
Cuidados essenciais para proteger os acervos
A proteção dos acervos exige uma combinação de boas práticas institucionais e apoio público. Entre os cuidados mais importantes estão:
- Planejamento e gestão de riscos
- Identificar vulnerabilidades, mapear ameaças e criar planos de segurança e emergência.
- Ambientes adequados de guarda
- Evitar subsolos e áreas sujeitas a alagamentos, priorizando locais seguros e bem monitorados.
- Controle ambiental
- Monitorar temperatura, umidade, ventilação e qualidade do ar.
- Manutenção preventiva dos edifícios
- Cuidar de telhados, calhas, instalações elétricas e hidráulicas.
- Capacitação das equipes
- Treinar profissionais para agir corretamente em situações de risco e emergência.
- Integração com políticas públicas
- Alinhar as ações institucionais às normas, diretrizes e programas de preservação cultural e ambiental.
- Preservar a memória é um compromisso com a sociedade
Na Memória da Eletricidade, a preservação do acervo é entendida como responsabilidade técnica e compromisso com a sociedade. Esse compromisso se expressa no fortalecimento contínuo de rotinas e protocolos voltados à prevenção e à gestão de riscos, com atenção às condições de guarda, à manutenção preventiva e à preparação para situações emergenciais.
Esse compromisso se materializa em práticas de conservação preventiva, como o acondicionamento em materiais adequados à preservação, a manutenção de uma estrutura de guarda física apropriada, com mobiliário compatível com as necessidades do acervo, e iniciativas de digitalização, acompanhadas de estratégias de redundância e acesso que reduzem vulnerabilidades e ampliam o uso social das coleções.