Historiador alemão revela como o Brasil ajudou a redefinir o poder global das hidrelétricas no século XX
Frederik Schulze já realizou pesquisas sobre a Usina de Tucuruí e outros empreendimentos da América Latina. Foto: Arthur Baptista / Acervo Memória da Eletricidade
O historiador alemão Frederik Schulze, docente da Universidade de Bielefeld, esteve no Brasil para aprofundar pesquisas que colocam o país no centro da história global das hidrelétricas. A partir de estudos realizados no acervo da Memória da Eletricidade e da Rede Bibliotecas da Energia, Schulze revela como o Brasil não apenas importou modelos técnicos, mas também produziu e exportou conhecimentos, especialistas e soluções que ajudaram a redefinir o papel das grandes barragens no cenário internacional ao longo do século XX.
O trabalho resultou no livro Dam Internationalism: Rethink Power, Expertise and Technology in the Twentieth Century, no qual o pesquisador analisa a circulação internacional de ideias, especialistas e tecnologias associadas às grandes barragens e à história das hidrelétricas no século XX, com ênfase nos países do Sul Global e no setor elétrico da América Latina.
Para o desenvolvimento da pesquisa, Schulze consultou 22 obras do acervo, incluindo títulos de referência como A Eletrobras e a história do setor de energia elétrica no Brasil, Panorama do setor elétrico brasileiro e Arqueologia nos empreendimentos hidrelétricos da Eletronorte. Durante a visita institucional, a equipe da Memória da Eletricidade conversou com o pesquisador sobre sua trajetória acadêmica, sua atuação em história global e o interesse pelo setor elétrico brasileiro.
Livro Dam Internationalism está disponível para consulta na Rede Bibliotecas da Energia. Foto: Gabriel Rechenioti / Acervo Memória da Eletricidade
A entrevista aborda temas centrais, como história global da energia, intercâmbio internacional de saberes técnicos, impactos sociais e ambientais das hidrelétricas e o caso emblemático da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, objeto do pós-doutorado de Schulze, desenvolvido a partir de pesquisas realizadas no acervo da instituição. Confira a entrevista completa:
ME: Como surgiu o seu interesse pelo Brasil e pela América Latina?
FS: Surgiu ainda quando eu era estudante de graduação na universidade. Optei por história como disciplina principal e decidi aprender português, já que meu pai tinha uma ligação forte com Portugal. Descobri então que havia um instituto latino- americano na universidade, com grande foco na literatura e na história do Brasil, e acabei me tornando um historiador dedicado ao país, algo bastante raro na Alemanha, onde apenas cerca de cinco pessoas pesquisam história brasileira. O Brasil é muito interessante, e por isso estou aqui.
Durante a minha formação, li muitos textos de historiadores brasileiros, mas o contato mais intenso ocorreu quando passei a me interessar pelas barragens. Nesse campo, as publicações da Memória da Eletricidade foram fundamentais, como o livro sobre o rio Tocantins e estudos sobre a Eletronorte e a história da energia no Pará. Meu primeiro estudo de caso foi sobre a Barragem de Guri, na Venezuela, como estudante ainda. Visitei a região sul do país, especialmente a cidade de Gran Sabana, e achei muito interessante; lá tem cachoeiras bem altas e as barragens. Depois, meu segundo estudo de caso foi sobre Tucuruí. Internacionalmente, a construção de Itaipu é mais conhecida, mas o caso de Tucuruí é bastante complexo, o que acabou chamando minha atenção, junto com outros empreendimentos no Uruguai e no México.
ME: Nesse estudo, você notou similaridades entre Guri e Tucuruí, em questões de impactos sociais e ambientais?
FS: Talvez não tanto neste sentido, mas há paralelos na implementação e no imaginário, já que ambas foram planejadas para projetos industriais. Guri não fica numa selva, como Tucuruí, e sim em uma savana, então as implicações ambientais são um pouco diferentes, e não havia muitas discussões sobre. Os dois projetos também tiveram participação da Construtora Camargo Correa, então são paralelos e diferenças. Os designs são diferentes, Guri é uma barragem mais alta. Além disso, o espaço de Tucuruí é bastante aberto aos visitantes e turistas, enquanto Guri é bastante inacessível, com proteções militares.
ME: Quais foram as principais fontes de pesquisa para o seu trabalho sobre Tucuruí?
FS: Visitei muitos acervos, não só da Memória da Eletricidade, mas aqui encontrei relatórios oficiais da Eletronorte e dos escritórios de engenheiros que participaram do projeto. Isso foi muito importante. Também encontrei entrevistas do Programa de História Oral e consultei acervos pessoais de engenheiros importantes do setor elétrico brasileiro. Para complementar, visitei a biblioteca da Eletronorte, o Arquivo Nacional e o Itamaraty.
ME: No Brasil, a construção de usinas e grandes reservatórios gerou impactos sociais e ambientais significativos. Nesse contexto, o que o seu estudo sobre Tucuruí revela?
FS: O assunto de danos ambientais e conflitos sociais é muito complicado também para mim, como estrangeiro, porque já entendi desde o início que é uma questão complexa. Falei com engenheiros da Eletronorte, que têm uma visão sobre essa questão, a Memória da Eletricidade tem uma diferente, ativistas tem outra... Então, tentei não apoiar ou privilegiar somente uma opinião, porque para mim, como historiador, é importante conhecer todos os lados e todas as fontes. Tentei mostrar essa ambivalência no livro, e, a partir disso, cabe ao leitor formar suas opiniões. Pude colocar uma vista bem ampla de todos os problemas e destacar tudo o que não está na documentação oficial, já que o Regime Militar evitava uma publicidade negativa, assim como Itaipu.
ME: Poderia nos explicar o conceito do internacionalismo das barragens, abordado em seu livro mais recente?
FS: É um livro que organizei em conjunto com um historiador dos Países Baixos. Nós reunimos profissionais que pesquisam sobre barragens no Sul Global, em busca de direcionar o olhar para o desenvolvimento de países menos conhecidos. Muito voltado a uma questão de exportação de conhecimento. Escrevi os capítulos sobre o Brasil e outros países latino-americanos, e tem artigos sobre a China, Índia e países da África. O argumento central é de que muitos atores conseguiram entrar, crescer e desenvolver conhecimentos sobre as barragens e sobre o ramo de hidroeletricidade como um todo, desafiando a hegemonia dos Estados Unidos e da Europa. É interessante porque, na historiografia, há a narrativa de que a tecnologia vem do Norte global, com uma dependência muito forte dos países do Sul, então tentamos desafiar essa noção. Os EUA são vistos como atores muito fortes, com capacidade de fazer o que bem entenderem, mas no âmbito tecnológico a questão é mais complexa.
Confira também a entrevista em vídeo
Frederik Schulze
Frederik Schulze é historiador, doutor e livre-docente em História Moderna, com atuação nas áreas de História global e História da América Latina. Atualmente, é docente da Universidade de Bielefeld, na Alemanha, e coordena projetos de pesquisa financiados pela Fundação Alemã de Amparo à Pesquisa (DFG), com foco em circulação de saberes, administração colonial e grandes empreendimentos de infraestrutura.
Sua trajetória acadêmica inclui passagens pela Universidade de Münster, pela Freie Universität Berlin e pelo Instituto Histórico Alemão, além de extensas pesquisas de campo no Brasil e em outros países da América Latina. Schulze é autor de estudos sobre barragens e hidrelétricas no século XX, entre eles o livro Dam Internationalism, disponível para consulta na sede da Rede Bibliotecas da Energia.
