Risco, estigmatização e responsabilidade em contextos pandêmicos

Postado em 11/10/2021
Igor Sacramento
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O surgimento do HIV/Aids no início dos anos 1980 estimulou uma infinidade de análises sociais e culturais sobre a representação do risco e a estigmatização e marginalização de grupos sociais como gays, usuários de drogas injetáveis e profissionais do sexo. Visto que o HIV se espalha por meio do contato físico muito próximo e da troca de fluidos corporais, como sangue e sêmen, durante atividades como sexo com penetração e compartilhamento de agulhas para injetar drogas, foi constantemente associado a conotações de desvio, acusação de vítima e moral julgamentos. Independentemente de como contraíram o HIV, as pessoas que vivem com o vírus foram frequentemente condenadas ao ostracismo e sujeitas ao estigma, particularmente se fosse assumido que elas se envolveram em comportamentos considerados como desviantes. 

Como comentou o pesquisador Robson Evangelista dos Santos Filho numa das lives da Memória da Eletricidade, muitas análises sociais subsequentes a epidemias e pandemias identificaram as maneiras pelas quais o risco tem sido associado à diferenciação de grupos sociais marginalizados: muitas vezes envolvendo julgamentos morais sobre a falta de responsabilidade pessoal. Já há estudos sobre a estigmatização de chineses, como aqueles que devem ser evitados, insultados, marginalizados e rejeitados. O racismo frequentemente faz parte das respostas sociais aos surtos de doenças. Noutro contexto, a transformação dos africanos no retrato da epidemia de Ebola pela mídia e o posicionamento das redes sociais de governos nacionais e autoridades de saúde pública, bem como de africanos como figuras culpadas durante tal epidemia foram observados na literatura da pesquisa social e nos estudos de comunicação. 

Numerosas análises de notícias e os textos publicados nas mídias sociais de surtos de gripe aviária, gripe suína, SARS, zika e Ebola também demonstraram a construção social de risco e noções de responsabilidade. Por exemplo, como observou a pesquisadora Laís Januzzi, numa investigação sobre a cobertura da mídia brasileira sobre os surtos de zika, descobriu que a metáfora da guerra foi usada para enquadrar as representações sociais e as respostas políticas, mas também que, no caso do endereçamento a mulheres, reforçou-se o princípio da precaução: mulheres deveriam evitar engravidar, sob o risco de terem que assumir a responsabilidades de filhos nascidos com microcefalia. Os impactos socioeconômicos e de gênero do surto de zika no Brasil foram amplamente esquecidos nas reportagens daquele país. O foco era a importância da erradicação do vetor do vírus (mosquitos Aedes aedypti) e a expectativa de que as gestantes se responsabilizassem por evitar a infecção para proteger seus fetos.

Dado que muitas das últimas pandemias, incluindo Covid, são zoonóticas (propagadas por um hospedeiro animal aos humanos), as perspectivas sócio-materialistas oferecem importantes insights sobre os complexos emaranhados da saúde humana e do bem-estar com outros animais e outras coisas vivas. Como pontua o antropólogo Jean Segata, essa abordagem sobre a saúde planetária dedica atenção à lógica, às práticas de conhecimento e às dimensões socioculturais e sócio-espaciais, incluindo questões de política neoliberalista, pós-colonialismo, racismo, gênero e outras formas de alteridade que muitas vezes não são reconhecidas pelas visões médicas e de saúde pública. O espaço e o local em que os agentes contagiosos, como vírus e bactérias, se juntam aos humanos e outros animais, também são identificados como elementos-chave das associações virais. O trabalho etnográfico que enfoca as experiências vividas por pessoas que trabalham com animais em ambientes onde surgem epidemias e pandemias, apontou para as dimensões micropolíticas do entrelaçamento de humanos com não-humanos. No caso da gripe aviária, os arranjos de vida das pessoas com aves domésticas eram fundamentais para os canais de contágio. Identificar essas relações multiespécies pode funcionar no sentido de quebrar o circuito contagioso. 

Quarentenas são usadas para conter epidemias desde desde o século XIV

Essa abordagem também chama a atenção para as dimensões espaciais e outras dimensões materiais de relações e montagens mais do que as humanas. As histórias sociais da medicina têm demonstrado como as coisas materiais, o espaço e o lugar têm sido centrais para as respostas aos surtos de doenças infecciosas, envolvendo a identificar e disciplinar os grupos considerados em risco ou classificados como de risco. Práticas de exclusão e isolamento são frequentemente o modo pelo qual tais populações problemáticas foram disciplinadas e contidas. A quarentena é uma dessas medidas, realizada desde o século XIV para lidar com surtos de peste e que se proliferaram ao longo dos séculos XIX e XX. As práticas de desinfecção, vigilância de doenças infecciosas e rastreamento de contato surgiram no século XIX, com os cidadãos encorajados a assumir a responsabilidade por práticas higiênicas em espaços públicos e domésticos. O uso de máscaras faciais para prevenir a infecção remonta ao surto de peste da Manchúria de 1910–11, após novos conhecimentos científicos davam conta de que o vírus da peste era transmitido pelo ar.

Quarentena forçada, isolamento físico, confinamento em casa, fechamento de fronteiras, fechamento de empresas, locais de trabalho, escolas e universidades instituídas nas respostas iniciais do governo para conter a disseminação do vírus afetaram o país, economias, liberdade de movimento, relações familiares e sociais e bem-estar mental. Conceitos de risco, incerteza e confiança de repente tiveram que ser reavaliados e confrontados. Ficou óbvio desde os primeiros meses da propagação global do novo coronavírus que, embora todos estivessem em risco de contrair a infecção, na maioria dos países alguns grupos sociais corriam mais risco do que outros. Estes incluíam grupos que já viviam altos níveis de desvantagem socioeconômica, marginalização e baixo acesso aos serviços de saúde.

Sobre a série #MemóriaDaPandemia

Em março de 2020, em um momento de grandes desafios causados pelo Covid-19, a Memória da Eletricidade lançou #MemóriaDaPandemia, uma série de lives nos seus canais oficiais no Instagram, Facebook e YouTube. O projeto atende à demanda por informações seguras e debates qualificados nas áreas de Saúde, Arte & Cultura e Gestão & Liderança. Com curadoria e apresentação do professor Igor Sacramento, doutor em Comunicação e Cultura pela UFRJ e pesquisador em Saúde Pública pela Fiocruz. Os episódios de #MemóriaDaPandemia são transmitidos todas as segundas, quartas e sextas-feiras, às 10h.



Igor Sacramento