As aventuras de Mário de Andrade no Rio de Janeiro

Postado em 13/04/2021
João Marcos Coelho
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Foram no mínimo muito divertidos e surpreendentemente produtivos os quatro anos – entre 1938 e 1941 – em que Mário de Andrade morou no Rio de Janeiro, segundo Eduardo Jardim, professor da PUC-Rio e biógrafo do polígrafo ensaísta, poeta, romancista, contista, musicólogo e gestor cultural que foi o dínamo propulsor da Semana de Arte Moderna de 1922 em São Paulo. Bem por isso, Eduardo colocou no título de sua biografia um verso do poeta, “Eu sou trezentos”. De fato, a enorme gama de interesses de Mário fez dele o mais fértil e diversificado intelectual brasileiro do século 20.

A quarta live da primeira temporada da série "Semana de Arte Moderna de 1922 – Passado, Presente e Futuro" na última quinta-feira, dia 8 de abril, disponível no canal de youtube da Memória da Eletricidade – mostrou a intimidade do paulistano no então Distrito Federal, capital do país: as noitadas num bar do Catete tomando chope com jovens como Carlos Lacerda e Moacir Werneck de Castro; a paixão pelas curvas das paisagens cariocas, sempre soberbas; e o amor incontido pelo cheiro de mar. Tudo isso, Mário curtiu demais, assim como o carnaval carioca, no qual mergulhou de cabeça. Chegou até a pensar em escrever um livro sobre o samba a partir dessa experiência – um raro projeto inacabado, que não se concretizou.Também construiu projetos no Ministério da Educação e Cultura capitaneado por Gustavo Capanema.

Neste clima descontraído, o professor Eduardo Jardim até leu o último e mais impactante poema de Mário de Andrade, “Meditação sobre o Tietê”, escrito às vésperas de sua morte, em 1945:

Sou homem! vencedor das mortes, bem nascido além dos dias,
Transfigurado além das profecias!

Eu recuso a paciência, o boi morreu, eu recuso a esperança.
Eu me acho tão cansado em meu furor.As águas apenas murmuram hostis, água vil mas turrona paulista
Que sobe e se espraia, levando as auroras represadas
Para o peito dos sofrimentos dos homens.
… e tudo é noite. Sob o arco admirável
Da Ponte das Bandeiras, morta, dissoluta, fraca,
Uma lágrima apenas, uma lágrima,
Eu sigo alga escusa nas águas do meu Tietê.

E concluiu com um raciocínio agudo: “Talvez este seja o momento em que, a um século de distância da Semana, não devemos mais considera-lo como nosso contemporâneo, mas como um dos grandes arquitetos, senão o maior, da cultura brasileira no século 20”.

Próximo episódio

Na próxima quinta-feira, dia 15 de abril, o professor Milton Lahuerta, da Unesp-Araraquara, vai conversar a respeito da postura dos intelectuais nos turbulentos, criativos e revolucionários anos 1920 no Brasil.

Programação

Confira a programação completa da primeira temporada da série de lives "Semana de Arte Moderna de 1922: Passado, Presente e Futuro". Os episódios são transmitidos sempre às quintas-feiras, às 18h, no canal da Memória de Eletricidade no Youtube.

Tudo que você precisa saber sobre a semana de 22:

Abril:

15/4 – Os intelectuais na década de 1920 – Com Milton Lahuerta, professor da UNESP-Araraquara(SP), autor de “A década de 20 e as origens do Brasil moderno” (Ed. Unesp). 

29/4 – Está tudo nas cartas – Mário de Andrade foi o maior missivista do Brasil no século XX. Escreveu cartas prodigiosamente, fez delas seu jeito de conversar com os amigos mas também com todos os que o procuraram. Com Marcos Antonio de Moraes, do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP e autor de “Orgulho de jamais aconselhar – a epistolografia de Mário de Andrade” (Edusp, 2007).  

Maio:

6/5 – O grande esquecido – Sérgio Milliet – Com o historiador Carlos Guilherme Mota, professor emérito da USP e Mackenzie, que prepara um livro sobre Milliet.  

13/5 – A força da poesia modernista – Com Manuel da Costa Pinto, jornalista, crítico literário e curador do Prêmio Oceanos.

20/5 – Revolução nas Artes Plásticas: Anita Malfatti, Tarsila e a Semana de 22 – Com Francisco Alambert, professor de História da Arte e Cultura Contemporânea, História (USP) professor de História da Arte e Cultura Contemporânea, História (USP) e autor de "A Semana de 22 - A aventura modernista no Brasil".  

27/5 – A Semana e as vanguardas latino-americanas na década de 1920 – Viviana Gelado, professora de literatura latino-americana na Universidade Federal Fluminense (UFF), autora de "Poéticas da transgressão: vanguarda e cultura popular nos anos 20 na América Latina".

João Marcos Coelho