Um mundo novo

Postado em 19/10/2020
Por José Luiz Alquéres
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A história da humanidade é uma história pontuada pelas formas e pelas fontes de energia que ela usa. Isso desde a mitologia, quando Prometeu dá o fogo a seus amigos humanos, simbolizando assim a possibilidade de os humanos terem atributos quase divinos. O fogo lhes permite multiplicar e diversificar a produção e, na prática e na simbologia, o fogo é a energia, uma coisa muito séria.

O homem foi progressivamente aprendendo a usar em seu benefício outras formas de energia disponíveis na natureza: as águas que correm, os ventos que impelem navios a vela e moinhos, o fogo e o carvão da lenha.

O carvão mineral só começou a ser usado mais extensivamente na Inglaterra do século XVI, quando suas florestas estavam devastadas. O óleo refinado do petróleo, no final do século XIX, disseminando-se mesmo nas primeiras décadas do século XX a partir da Primeira Guerra Mundial, quando foi usado nos motores dos navios de guerra e no pós-guerra, período no qual o automóvel incentivou a moradia nos subúrbios e o trabalhar em zonas industriais e centros comerciais, espacializando funcionalmente as cidades.

A cada uma dessas mudanças corresponderam enormes transformações nos meios de viver, produzir. E enormes progressos também no campo das invenções que atendessem aos mais diversos usos.

A popularização da energia elétrica

Do final do século XIX em diante, crescentemente se popularizou uma forma de energia secundária, a energia elétrica. Podendo ser obtida praticamente a partir das mais variadas fontes, como biomassa, água, vento, carvão mineral, petróleo, minerais radioativos e outras, bem como transmitida nas mais variadas tensões, das mais curtas às mais longas distâncias, ela se consolidou como a mais versátil forma de energia. Ela pode ser produzida concentradamente em grandes núcleos de geração (usinas termonucleares, grandes hidrelétricas), em núcleos de tamanho médio, como parques eólicos ou núcleos de cogeração, e até mesmo em pequenas instalações de painéis fotovoltaicos que servem a uma simples unidade domiciliar ou comercial.

As suas centrais de produção a combustível de origem fóssil hoje podem ter equipamentos para diminuir as descargas de carbono ao meio ambiente. É uma questão de custo. Quando produzida por fontes limpas, a exemplo dos painéis fotovoltaicos, das eólicas e das hidrelétricas dos mais variados portes, a energia elétrica não produz gases de efeito estufa.

Todos os estudos em relação ao futuro mostram a necessidade de migrarmos para uma economia de baixo carbono, ou seja, sem implicar na utilização de energia de fontes poluidoras e sem pressionar os fatores que levam às mudanças climáticas, que já estamos sofrendo. Outros estudos apontam a necessidade de se preservar a água como o mais escasso dos recursos, o que impõe a proteção de ambientes naturais, reverter o desflorestamento e mesmo recuperar várias extensões de terras levadas à aridez por práticas agropecuárias predatórias. Água, alimentos e energia têm que, doravante, ser estudados e planejados em conjunto. O clássico planejamento energético virou um tipo de esquizofrenia, uma incompletude em si.

Combinados a esses e outros fenômenos físicos, assiste-se a uma progressiva urbanização do mundo com a tendência de formação de grandes megalópoles, que podem vir a ser sucedidas pela formação de cidades de porte médio nas quais as condições de vida das populações sejam mais resguardadas em matéria de segurança, acesso a serviços públicos, controle da poluição e garantia da saúde pública. A recente pandemia acelerou a tendência do trabalho à distância, um maior isolamento social e o surgimento de recursos digitais que marcaram uma inflexão grande nas práticas a que estávamos acostumados.

Os desafios do Antropoceno

Com o crescimento da população do planeta, já ultrapassando 7 bilhões de habitantes e a caminho de 10 a 12 bilhões no ano 2050, nossa era já se denomina o Antropoceno. O homem é o maior causador das mudanças no ambiente. Os padrões de gestão territorial estão entrando na ordem do dia. Algo comum a todos os cenários futuros é a presença universal da eletricidade como a energia de maior peso na matriz energética.

Os combustíveis líquidos ainda imperam no setor de transporte e têm papel importante na indústria. Os sólidos, como o carvão, têm um peso grande e, sendo o recurso mais abundante, é provável que assim se mantenham, caso desenvolvidos meios mais econômicos para capturar as suas emissões de carbono. O nuclear enfrenta enormes percalços nas democracias, uma vez que as populações sempre se manifestam contra a sua utilização. Ultimamente, tem prosperado mais na China e em outros estados autoritários.

Vemos, portanto, neste século XXI a explosão da produção das fontes alternativas não poluentes que deverão, a meu juízo, ser acompanhadas pela geração térmica limpa, quando se desenvolverem formas econômicas de captura do carbono da queima do carvão, petróleo e gás natural. Não resta dúvida de que, antes de alcançar a utilização final, essas fontes todas serão transformadas em eletricidade e, movimentando-se por fios condutores adequados, energizarão dos mais minúsculos aparelhos aos mais alentados equipamentos industriais de fabricação de alumínio, papel ou laminação do aço. É possível também que, para usos mais volantes, a eletricidade venha a ser utilizada na eletrólise da água para obtenção do hidrogênio, um gás que, superados os problemas de segurança na sua utilização, promete ocupar importantíssimo papel nos próximos anos. O futuro próximo e a meio termo é elétrico e de energia obtida de fontes sustentáveis. Esta dupla característica fala muito da importância dos centros de pesquisa na indústria e nas entidades oficiais, que devem ter seus orçamentos a isso adequados.

Por um futuro mais limpo e sustentável

Vejamos o progresso da cocção de alimentos. Ela evoluiu do alimento a ser exposto diretamente ao fogo, a ser cozido em panelas, a serem utilizados os fogões a carvão vegetal ou de pedra, ao fogão a gás oriundo do carvão, ao gás natural ou GLP (gás liquefeito de petróleo), ao forno de micro-ondas, ao fogão elétrico e ao cozimento por indução eletromagnética. Tudo isso se usa, mais de dez alternativas. As de origem de energia elétrica são as mais limpas e seguras, além de não sujarem os recipientes no lado exposto ao calor. Imaginem na indústria e produção com as tecnologias de fornos, arcos voltaicos, eletrólise e outras muitas que poderão ser aplicadas.

O futuro tem que ser mais limpo e sustentável. A energia elétrica é a grande viabilizadora disso. O campo de pesquisa é muito promissor e acessível, especialmente no território das aplicações e principalmente em países como o Brasil, onde criatividade e inventividade fazem parte da cultura. No lado da produção, podemos, se concentrarmos recursos em uma ou duas fontes, fazermos a diferença. Mas não conseguiremos nada se distribuirmos nossos parcos recursos entre a enorme gama de caminhos possíveis. Caso isso permaneça ocorrendo, continuaremos a ser meros adquirentes de tecnologia.

No pós-pandemia, com o novo desenho das cidades, inteligentes sem dúvida, teremos oportunidades abundantes para sermos líderes no campo da pesquisa e fabricação de aparelhos consumidores de energia elétrica e controladores do seu consumo, talvez também baterias. Eventualmente, se estruturada uma boa política de governo, podemos vir a ter de novo destaque mundial como um dia tivemos nas grandes hidrelétricas.

José Luiz Alquéres é ex-presidente da Eletrobras, da Alstom e da Light e editor-chefe da Ediçōes de Janeiro.

Por José Luiz Alquéres