Ilha Solteira completa 47 anos de operação contínua

Postado em 21/09/2020
Paulo Brandi
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Há 47 anos, a usina de Ilha Solteira começou a gerar energia para abastecimento da região Sudeste, acionando a primeira das 20 turbinas instaladas em sua monumental barragem. O início da operação da usina em 18 de julho de 1973 foi um momento marcante na história da engenharia nacional e do setor elétrico brasileiro, considerando a dimensão do empreendimento e o desenvolvimento técnico propiciado pela sua construção.

Idealizada nos anos 1950, Ilha Solteira foi erguida no rio Paraná, perto da desembocadura do rio Tietê, na região fronteiriça entre os estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul. Possui capacidade instalada de 3.440 megawatts (MW) e forma com a usina Jupiá, situada a jusante, o complexo hidrelétrico Engenheiro Francisco Lima de Souza Dias Filho, também denominado Urubupungá, um dos maiores do mundo em potência instalada.

As obras das duas usinas foram iniciadas pela Centrais Elétricas de Urubupungá (Celusa) e levadas a cabo pela Centrais Elétricas de São Paulo (Cesp), empresa do governo paulista constituída em 1966 mediante a fusão de 11 concessionárias estaduais preexistentes, inclusive a Celusa.

Instalação do conjunto de máquinas foi completado em dezembro de 1978

O projeto e a construção de Ilha Solteira foram realizados em continuidade a Jupiá, com a participação de grandes empresas nacionais, a colaboração de Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT) e de renomados consultores internacionais. Jupiá (1.551 MW) entrou em funcionamento em 1969, sendo concluída em 1974. Ilha Solteira completou a instalação de seu conjunto de máquinas em dezembro de 1978.

As duas usinas demandaram inovações tecnológicas, novas técnicas construtivas, emprego de equipamentos e materiais não convencionais que contribuíram em muito para o desenvolvimento da engenharia nacional. Um marco pioneiro de Ilha Solteira foi emprego do concreto refrigerado com gelo em escamas, introduzido pelo Laboratório de Concreto da Cesp.

O empreendimento mobilizou mais de 15 mil operários e exigiu a construção de cidade-acampamento, que chegou a contar com 35 mil habitantes.

A operação de fechamento das comportas de Ilha Solteira foi marcada por uma série de manobras, inclusive no campo diplomático. O aproveitamento binacional de Itaipu no rio Paraná estava na ordem do dia e o projeto brasileiro-paraguaio vinha sendo questionado pelo governo argentino. Em março de 1973, a Cesp anunciou o início do enchimento do lago de Ilha Solteira, assegurando que a operação não prejudicaria as populações ribeirinhas e a navegabilidade do rio. O governo argentino não perdeu a oportunidade de protestar contra o represamento, alegando não ter sido informado previamente pelo Itamaraty, mas a operação prosseguiu sem maiores incidentes diplomáticos nos termos combinados entre os signatários do Tratado da Bacia do Prata.

Lago de 1,2 mil quilômetros quadrados alterou a geografia de quatro estados

A formação do lago de Ilha Solteira inundou uma área de 1.231 quilômetros quadrados, alterando profundamente a fisionomia de áreas pertencentes a São Paulo, Mato Grosso, Minas Gerais e Goiás. Municípios de Mato Grosso, posteriormente incorporados ao estado do Mato Grosso do Sul, também foram afetados. A emergência das águas em área tão extensa provocou uma fuga coletiva de dezenas de espécies que tinham seu habitat às suas margens do rio Paraná.

A Cesp também implantou um extenso sistema de transmissão em 440 kV para levar a energia das usinas de Ilha Solteira e Jupiá até a região metropolitana de São Paulo.

Em novembro de 2015, a companhia China Three Gorges (CTG) arrematou a concessão das usinas de Ilha Solteira e Jupiá pelo prazo de 30 anos, em leilão promovido pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). 

Paulo Brandi