No dia do bibliotecário, celebramos os profissionais que ajudam a preservar obras e memória

Postado em 11/03/2021
Luiz H. Romanholli

Jornalista formado pela Escola de Comunicação da UFRJ, foi repórter e subeditor do caderno de cultura do Globo (RJ), além de editor-adjunto de Esportes e editor do suplemento de carros do mesmo jornal. Numa segunda passagem pelo Globo, exerceu a função de gerente de produtos, negócios e projetos especiais. Na Globo.com e TV Globo, foi gerente de conteúdo/editor-chefe dos sites GloboEsporte.com, Big Brother Brasil, Ego e dos programas de entretenimento da emissora (Projac). Na Memória da Eletricidade, é editor do site e consultor.

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A bibliotecária Stephanie Costa, da equipe do Acervo da Memória da Eletricidade

Instituído pelo Decreto nº 84.631, de 9 de abril de 1980, o dia do bibliotecário é comemorado nacionalmente em 12 de março. A data foi escolhida por ser a de nascimento de Manuel Bastos Tigre, em 1882, em Pernambuco. Poeta, escritor, compositor, humorista, publicitário e bibliotecário, o recifense Bastos Tigre primeiro cursou engenharia, com especialização em eletricidade. Foi justamente quando estudava engenharia elétrica nos Estados Unidos que conheceu o bibliotecário estadunidense Melvil Dewey, que lhe apresentou o sistema de classificação decimal. Impressionado com o que mais tarde passaria a ser chamado de CDD (Classificação Decimal de Dewey), o brasileiro decidiu, em 1915, trocar a engenharia pela biblioteconomia. Um dos pioneiros da profissão no Brasil, Bastos Tigre é considerado o primeiro bibliotecário concursado do Brasil. Trabalhou no Museu Nacional do Rio de Janeiro, na Biblioteca Nacional e foi diretor da Biblioteca Central da Universidade do Brasil (atual UFRJ).

A função de bibliotecário é uma das mais importantes da Memória da Eletricidade. Esses profissionais exercem diariamente seu ofício naquele que é o coração da instituição, o Acervo. Formada em Biblioteconomia e Gestão de Unidades de Informação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e discente no MBA em Big Data e Inteligência de Mercado da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Stephanie Costa faz parte do time da Memória da Eletricidade desde 2014. Ela explica que bibliotecário, diferentemente do que se pode pensar, não é só quem cuida de livros:

– No início de suas atividades, ainda não como profissionais, os bibliotecários eram mesmo estes guardiões dos livros. Mas isso ocorria em um período em que as informações estavam ligadas principalmente a este suporte e também ficavam restritas a uma pequena parcela de pessoas. Fosse porque a leitura era uma habilidade para poucos ou porque as pessoas que detinham conhecimento não achavam interessante partilhá-los entre os demais. Mas agora o cenário é bem diferente. As informações estão dispostas em diversos suportes, e a biblioteca tem o objetivo fundamental de organizar essas informações e disponibilizá-las a seu público de interesse. Os meios para se fazer isso podem variar de acordo com o público atendido, com o tipo de informação que queremos entregar, mas certamente a ideia principal não é de reter as informações preservadas, mas sim de disseminá-las.

Maria Araújo, formada pela PUC-Campinas e com experiência em bibliotecas especializadas no setor de energia, também faz parte da equipe do Acervo da Memória da Eletricidade. Ela conta que há muitas especialidades na profissão:

– A formação básica é o curso de biblioteconomia e temos ótimas instituições. As especialidades variam tanto... Eu, por exemplo, fiz cursos na área de gestão da informação e do conhecimento, além de introdução a restauro de livros, que, a propósito, é uma grande paixão minha. Mas conheço pessoas que se especializam ou atuam em informação jurídica, informação e pesquisa em saúde, comunicação e marketing, mídias sociais, ciência de dados, tecnologia e automação de biblioteca, projetos de inovação em empresas ou memória organizacional. Desde que a matéria-prima seja informação ou dados, o profissional bibliotecário ou profissional da informação, como muitos têm chamado atualmente, pode e deve atuar. Além, claro, do trabalho nas clássicas e consagradas bibliotecas públicas, nas instituições de ensino e nos centros de memória.

Rotina alterada pela pandemia

A partir dessa gama de possibilidades, a rotina de Maria e Stephanie é instigante e desafiadora. Mas sofreu um grande impacto com o isolamento social imposto pela pandemia de Covid-19.

– Nossa rotina se modificou bastante em decorrência da pandemia. O home office foi uma total novidade para nós. No início foi preocupante, pois grande parte do nosso trabalho está ligada ao contato físico com o acervo. Mas conseguimos selecionar demandas que poderiam ser feitas remotamente, que estão sendo realizadas até hoje – conta Stephanie. – As principais atividades do nosso dia a dia envolvem catalogações a partir de importação de dados bibliográficos, atendimentos virtuais aos usuários, serviços de disseminação seletiva da informação e apoio o desenvolvimento de projetos externos da empresa, dentre outras coisas.

Já Maria, que se juntou à equipe da Memória da Eletricidade em fevereiro de 2020, um mês antes do começo da pandemia no Brasil, vem trabalhando em projetos pontuais: 

– Durante o mês de fevereiro, estava namorando a biblioteca e a ME, conhecendo as pessoas, conhecendo o acervo. Durante o período de trabalho em casa, basicamente fiz catalogação, inclusão de bibliografia na base nova da ME, pesquisas bibliográficas e atendimento a usuários cujo material de interesse podia ser enviado por e-mail. Agora, estou trabalhando na elaboração de alguns projetos pontuais da ME. Mas tem uma coisa de que eu gosto muito. Trabalhei na elaboração ou na reformulação, quando foi o caso, dos documentos de gestão da biblioteca.

Por conta do isolamento, Maria ainda não conseguiu ter contato com o acervo físico da Memória da Eletricidade. Mas ela já destaca um item que a impressionou: 

– Durante uma pesquisa que fiz para um usuário, conheci uma obra produzida pela Memória da Eletricidade que é rica em fotografias da época, o livro “Paulo Afonso I: imagens de uma epopeia”. Fiquei imaginando a dificuldade dos pioneiros, dos trabalhadores e fiquei muito admirada.

Com mais anos de casa, Stephanie destaca dois livros da biblioteca da instituição.

– Entre as publicações produzidas pela Memória da Eletricidade, eu destacaria o “Panorama do Setor de Energia Elétrica”, que considero uma das mais importantes, pois, dada a sua abrangência, consegue atender a pesquisas de diferentes naturezas. E, do acervo geral, escolheria o “Atlas e relatório concernente à exploração do Rio de S. Francisco” que tem um conteúdo super interessante e uma apresentação belíssima. 

Os desafios da biblioteconomia no mundo digital

Tendo começado a carreira já num cenário em que livros e documentos digitais eram realidade, Stephanie vê na preservação de documentos natodigitais um grande desafio.

– Muitas pessoas acreditam que possuir acervos integralmente em meio eletrônico é a solução de todos os problemas. Mas ainda sabemos muito pouco sobre a efetividade dessas ações de preservação no longo prazo – alerta. – Os modelos de negócio para assinaturas de e-book, por exemplo, podem até dar acesso por um longo período, mas, ainda assim, o material fica hospedado na plataforma de um terceiro, o que sempre representará um custo extra. Além disso, o material não pertencerá a biblioteca de fato. Então, que garantias teremos de que daqui a 50 anos ele ainda vai estar disponível, em condições de acesso? Ou a certeza de que vamos continuar tendo recursos para custear a licença de uma plataforma desse tipo. Não temos. Isso é um fator que me preocupa bastante.

Maria aponta algumas dificuldades na preservação de livros e documentos natodigitais. Por ser um formato relativamente novo, ainda é um tema muito discutido no meio da biblioteconomia. 

– Os e-books e os audiobooks são bem presentes na minha vida pessoal e na profissional também. No entanto, há pontos de cuidado e outros que ainda há o que se descobrir e discutir. E-book para bibliotecas, por exemplo. Nas instituições de ensino há fornecedores com catálogos com pacotes de assinaturas de títulos que cobrem temas acadêmicos ou escolares. Mas, para bibliotecas organizacionais ou centros de memória há maior dificuldade de encontrar um fornecedor cujo catálogo inclua títulos que tratem de temas atraentes para a comunidade de usuários, cujo interesse sejam temas ou assuntos específicos – compara. – Outro ponto de cuidado diz respeito a preservação de documentos digitais. Embora aqui no Brasil algumas instituições e projetos já estejam discutindo há algum tempo, ainda são poucos os relatos de experiência e há muito a avançar.

Guerra à poeira e às traças

Para os amantes de livros que têm bibliotecas em casa, Stephanie tem alguns conselhos. O principal deles é: combata poeira, inimiga número um dos livros.

– Sei que adoramos expor nossos livros, que são lindos mesmo. Mas a exposição à poeira acelera o processo de degradação do papel. Isso porque as partículas pelas quais ela é composta são oriundas de ativos ácidos que podem ser nocivos ao papel. Então, periodicamente, tente higienizá-los com um espanador de plumas ou escova antiestática – aconselha. – E muito cuidado para não os deixar em locais com incidência de sol. Isso pode resultar em dados irreversíveis, como amarelamento ou escurecimento das páginas, além de torná-las fracas e quebradiças. Por último, indico que não façam a utilização de fitas adesivas para realização de possíveis reparos no acervo. Isso porque, esse tipo de material é utilizado como alimento para traças e pode favorecer a proliferação de pragas no acervo.

Maria recomenda carinho e a guerra ao inimigo número dois dos livros: as traças.

– Seja paciente e atencioso. A pessoa que quer manter uma coleção ou uma biblioteca, deve ter em mente que são objetos frágeis. Os livros devem ser arranjados em ambiente arejado, porém protegido de iluminação direta e poeira – diz. – Tenha cuidados também com traças e cupins. A limpeza periódica pode ajudar a identificar e eliminar estas pragas. Outro ponto fundamental: nunca deixe ou consuma alimentos perto da área onde está a coleção ou biblioteca. Os restos de alimentos atraem insetos ou pequenos animais, como ratos, que, além dos restos de alimentos e sujidades, aproveitam para se alimentar do papel dos seus livros. 

Viver entre livros. Pode haver profissão mais adorável?

Luiz H. Romanholli

Jornalista formado pela Escola de Comunicação da UFRJ, foi repórter e subeditor do caderno de cultura do Globo (RJ), além de editor-adjunto de Esportes e editor do suplemento de carros do mesmo jornal. Numa segunda passagem pelo Globo, exerceu a função de gerente de produtos, negócios e projetos especiais. Na Globo.com e TV Globo, foi gerente de conteúdo/editor-chefe dos sites GloboEsporte.com, Big Brother Brasil, Ego e dos programas de entretenimento da emissora (Projac). Na Memória da Eletricidade, é editor do site e consultor.