Cepel celebra 47 anos buscando soluções adequadas à realidade brasileira

Postado em 19/02/2021
Luiz H. Romanholli

Jornalista formado pela Escola de Comunicação da UFRJ, foi repórter e subeditor do caderno de cultura do Globo (RJ), além de editor-adjunto de Esportes e editor do suplemento de carros do mesmo jornal. Numa segunda passagem pelo Globo, exerceu a função de gerente de produtos, negócios e projetos especiais. Na Globo.com e TV Globo, foi gerente de conteúdo/editor-chefe dos sites GloboEsporte.com, Big Brother Brasil, Ego e dos programas de entretenimento da emissora (Projac). Na Memória da Eletricidade, é editor do site e consultor.

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Inaugurado no dia 21 de janeiro de 1974, o Centro de Pesquisas de Energia Elétrica, Cepel, é o maior centro de de pesquisa aplicada em sistemas e equipamento elétricos da América Latina. Referência no Brasil e no exterior, o Cepel desenvolve soluções tecnológicas especialmente voltadas à geração, transmissão, distribuição e comercialização de energia elétrica no Brasil. Contando com profissionais especializados de alto gabarito, o centro de pesquisas chega aos 47 anos adaptando-se a uma nova realidade nacional e mundial, em que fontes alternativas de energia e mudanças no comportamento do consumidor vão exigir novas soluções. Em entrevista para o site da Memória da Eletricidade, o diretor-geral da instituição, engenheiro Amilcar Guerreiro relembra a trajetória do Cepel, conta como foi o desafio de manter as atividades durante a pandemia e fala das soluções inovadoras, desenvolvidas em seus laboratórios especificamente para a realidade brasileira.

Pergunta: Desde a sua fundação, há 47 anos, o CEPEL esteve atuante, a despeito de várias mudanças de governo e diferentes cenários econômicos. Fale um pouco dessa trajetória e das mudanças pelas quais a instituição passou.

Resposta: O Cepel foi criado nos anos 1970 numa clara decisão do governo de então de reconhecer a importância da pesquisa na área de tecnologia. Além do Cepel, foram criados outros centros de pesquisa de tecnologia, nas áreas de petróleo e telecomunicações, por exemplo. O Cepel foi criado nesse bojo, dentro da perspectiva de que o país precisava dotar os setores de infraestrutura de um ambiente em que se pudesse avançar nessa área de pesquisa e desenvolvimento. Pesquisa e desenvolvimento é muito aclamado quando se tem o produto pronto. Mas, não raro, leva-se um tempo grande para chegar a um produto que possa ser usado pela sociedade. Desde o início dos anos 70, o Cepel tem cumprido esse papel no apoio às usinas, às empresas geradoras de energia, às empresas transmissoras de energia e também um papel importante na área de eficiência energética. Temos toda uma parte técnica e temos um desenvolvimento importante na área de softwares. Um exemplo é a automação. Hoje, todo o sistema interligado brasileiro é operado pelo ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) a partir de um sistema desenvolvido pelo Cepel. Tanto a parte de avaliação e análise energética, quanto o planejamento da operação do sistema são feitos com base num modelo desenvolvido no Cepel. E também a análise elétrica. No caso de qualquer ocorrência no sistema, os softwares desenvolvidos pelo Cepel são utilizados para avaliar o que ocorreu, a amplitude do que ocorreu e até endereçar soluções. Mais modernamente, temos avançado muito na área de monitoramento de ativos. Por exemplo: hoje, todas as máquinas de Itaipu dispõem de um sistema de monitoramento de performance desenvolvido pelo Cepel. Esse monitoramento permite que se avance na área de manutenção. No passado, havia dois movimentos na área de manutenção: ou fazia a manutenção programada ou fazia a manutenção corretiva. A primeira evitava que o problema ocorresse. A segunda corrigia o problema depois de detectado. Mas o que não se sabia era da necessidade de manutenção num momento específico. Hoje, com esse sistema, é possível avaliar a performance de um equipamento sem tirá-lo de funcionamento e perceber se ele precisa ou não de manutenção. Isso significa aumento de produtividade e redução de custos. Acabamos de fazer um trabalho preventivo no Sul do país em que se fez uma análise do transformador em operação. Nessa análise, é possível perceber se o equipamento deve ou não ser substituído. Se houvesse esse tipo de solução lá no Amapá talvez os efeitos do que ocorreu lá tivessem sido minimizados. Ao longo desses 50 anos, o Cepel vem trabalhando, tanto na parte de softwares, automação, análise energética e análise elétrica, quanto na parte de ensaios, tecnologia. Fazemos análise de corrosão na base das torres de transmissão. Como as torres de uma linha costumam ter a mesma idade, se surge um problema em uma delas, dá em todas, num efeito cascata. A tecnologia ajuda em ações preventivas para evitar problemas. 

P: Uma das metas do Cepel é contribuir para o desenvolvimento de tecnologias e soluções adequadas à realidade brasileira. Quais são os principais desafios e dificuldades para a produção e distribuição num país de condições continentais, que demandam linhas de transmissão de energia de longa distância? Além disso, há as diferenças regionais e a desigualdade. Como o Cepel vem ajudando a achar soluções para o setor elétrico?

R: É fundamental ter condições para fazer um monitoramento prévio do desempenho desses equipamentos, sejam torres ou transformadores. Isso aumenta a segurança do sistema. Falando da realidade brasileira, estamos desenvolvendo um projeto com a Marinha. A Marinha tem instalados painéis fotovoltaicos em ilhas oceânicas. Temos um projeto de substituir esses painéis e trazer os antigos para nosso laboratório inaugurado no final de 2019, em que há simuladores solares. Esses painéis se degradam e perdem eficiência ao longo do tempo. Mas todas as referências que temos relativas a esse tema são internacionais. Nos nossos laboratórios, vamos poder avaliar a degradação desses painéis simulando as condições climáticas do Brasil. Outro exemplo: nos anos 80, foi instalada a primeira linha de corrente contínua no Brasil por conta das máquinas de 50 ciclos de Itaipu. Essa linha vai de Itaipu até São Paulo. Hoje, há grandes linhas de corrente contínua transmitindo uma potência elevada que vêm do Madeira e de Belo Monte. E todas vêm aqui para o Sudeste, que é onde está concentrada a carga. Não há hoje no mundo um software capaz de fazer uma análise conjugada de sistemas de corrente contínua com sistemas de corrente alternada, que é a grande malha brasileira. Essa análise de um sistema de corrente contínua acoplado a um sistema de corrente alternada é inédita e ainda está em desenvolvimento no Cepel, chama-se AnaHVDC. Isso não tem similar no mundo. A capacidade de fazer uma análise de um sistema grande como o brasileiro é uma contribuição importante que o Cepel tem dado. Outro exemplo: uma usina não pode ser construída em qualquer lugar. Uma usina precisa ter uma conexão no sistema. Toda a análise do ponto em que uma usina vai ser conectada, se aquele ponto tem a capacidade de receber a potência e que alteração isso vai causar no sistema é feita com softwares desenvolvidos aqui no Cepel. Há outros softwares que fazem esse tipo de trabalho, desenvolvidos por outras empresas, mas são usados em diferentes países e sistemas. Por isso, precisam ser mais generalistas. Não que sejam ruins, mas os nossos são taylor made, absolutamente aderentes à realidade brasileira.

Laboratório de Redes Elétricas Inteligentes

P: Além do caso da Marinha citado, de quais outras ações o Cepel tem participado ou contribuído para o desenvolvimento de novas formas de geração de energia no Brasil?

R: Temos todo um desenvolvimento aplicado à indústria eólica, de análise das pás. Nossa inserção é sempre muito técnica. Por um lado, analisamos o efeito que novas formas de energia têm no sistema. Por outro, analisamos o estado das pás do aerogerador. É muito difícil que uma dessas pás dê problema, mas quando ocorre o aerogerador sai de operação. Então, temos trabalhado com tintas anticorrosivas, porque boa parte do parque eólico brasileiro está localizado perto do mar. Temos também um programa de certificação, tanto na parte energética, quanto na parte de geração alternativa e renovável. Tenho para mim que, no futuro, não serão mais construídas grandes hidrelétricas no Brasil. Talvez pequenas usinas. E no Brasil desenvolveu-se muito a capacidade de construção de hidrelétricas de grande porte, mas muito pouco os projetos de pequeno porte. Estamos trabalhando para melhorar essa técnica. Olhando para o futuro, uma outra transformação que está acontecendo é em relação ao consumidor, que deixará de ser passivo. Esse consumidor vai poder produzir e armazenar energia e decidir quando compra e quando não compra energia. Isso vai mudar completamente a cara do sistema, seja do ponto de vista do seu funcionamento, seja do ponto de vista do funcionamento dos equipamentos. Num sistema elétrico, o comportamento de um consumidor ou de um agente afeta a qualidade do serviço para outro consumidor. Um exemplo são os inversores dos painéis fotovoltaicos instalados em casas ou estabelecimentos comerciais ou industriais, que podem afetar o sistema. Para conhecer bem como essas coisas podem ocorrer, vamos inaugurar em meados deste ano o Laboratório de Redes Elétricas Inteligentes. Com esse laboratório, vai ser possível avaliar o comportamento desses novos elementos introduzidos no sistema. Com isso, já estamos olhando para o futuro. 

P: Como o isolamento forçado pela pandemia afetou o trabalho do Cepel?

R: Esta é uma boa pergunta. No Cepel, temos duas naturezas de trabalho. Evidentemente que os ensaios em laboratório têm que ser feitos de forma presencial. Mas os clientes que contratam um ensaio ou um experimento do Cepel têm interesse em acompanhar o trabalho de perto para conhecer a técnica que está sendo utilizada. Em alguns laboratórios, o cliente vai poder acompanhar o experimento de onde estiver, remotamente. Isso já é uma evolução tecnológica que a pandemia antecipou. Agora, há um outro conjunto de atividades, como o uso de softwares na área de automação, análise energética e elétrica e monitoramento de ativos, tudo isso pode ser feito em teletrabalho. Nós já fazíamos isso, e o trabalho do Cepel não foi tão afetado durante a pandemia. É claro que estamos num processo de aprendizado e entramos num esquema de teletrabalho de uma hora para outra. Eu acredito que no pós-pandemia, uma parte importante do trabalho do setor energético poderá ser feita de forma remota. Digo uma parte importante, porque não dá para excluir a reunião das pessoas, a parte presencial. A gente entrou em teletrabalho do dia para a noite e usou e está gastando o capital de relacionamento que as pessoas tinham. Você precisa do contato. Eu, com a minha equipe, consigo fazer o teletrabalho porque já conheço as pessoas, já sei como a pessoa trabalha. No futuro, apesar do trabalho à distância, vai ser necessário reservar um tempo para as relações pessoais. 

Laboratório de Ultra-Alta Tensão em Adrianópolis, bairro do município de Nova Iguaçu (RJ)

P: Em 2017, o CEPEL o Laboratório de Ultra-Alta Tensão. Que tipo de pesquisa é realizado em suas instalações e quais as aplicações práticas?

R: O Cepel tem duas unidades. Uma na Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro e outra em Adrianópolis (bairro do município de Nova Iguaçu, RJ). Esse laboratório está em Adrianópolis. Ele tem uma seção da linha de Belo Monte Sudeste. Ele permite fazer ensaios como se você estivesse no campo. Desenvolve ensaios que vão permitir estabelecer procedimentos técnicos para manutenção em linha viva do sistema de transmissão em alta tensão em corrente contínua. Esta, inclusive, é uma aplicação inédita no mundo. Por exemplo, um ponto de defeito muito comum acontece nos isoladores que se encontram em todas as linhas de transmissão. O procedimento de trocar e lavar esses isoladores em corrente contínua não é uma coisa trivial e quando a gente estabelecer esse procedimento, vai ser uma vanguarda aqui no Hemisfério Sul. Vamos conseguir estabelecer procedimentos técnicos que possibilitem a manutenção em linha viva.

Luiz H. Romanholli

Jornalista formado pela Escola de Comunicação da UFRJ, foi repórter e subeditor do caderno de cultura do Globo (RJ), além de editor-adjunto de Esportes e editor do suplemento de carros do mesmo jornal. Numa segunda passagem pelo Globo, exerceu a função de gerente de produtos, negócios e projetos especiais. Na Globo.com e TV Globo, foi gerente de conteúdo/editor-chefe dos sites GloboEsporte.com, Big Brother Brasil, Ego e dos programas de entretenimento da emissora (Projac). Na Memória da Eletricidade, é editor do site e consultor.