Museu da Pessoa: conexão entre cidadãos e povos a partir de histórias de vida

Postado em 18/11/2020
Luiz H. Romanholli

Jornalista formado pela Escola de Comunicação da UFRJ, foi repórter e subeditor do caderno de cultura do Globo (RJ), além de editor-adjunto de Esportes e editor do suplemento de carros do mesmo jornal. Numa segunda passagem pelo Globo, exerceu a função de gerente de produtos, negócios e projetos especiais. Na Globo.com e TV Globo, foi gerente de conteúdo/editor-chefe dos sites GloboEsporte.com, Big Brother Brasil, Ego e dos programas de entretenimento da emissora (Projac). Na Memória da Eletricidade, é editor do site e consultor.

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Karen Worcman, historiadora e fundadora do Museu da Pessoa

Fundado em 1991 em São Paulo como um museu virtual e colaborativo, o Museu da Pessoa dedica-se a registrar, preservar e difundir histórias de vida de qualquer indivíduo da sociedade, sejam cidadãos anônimos, sejam figuras proeminentes. A iniciativa, original e inovadora numa época em que a internet ainda não havia se popularizado, permite que qualquer pessoa seja, ao mesmo tempo, visitante, acervo e curador. A instituição chega aos 30 anos em 2021 com intensa programação, dentro da missão de promover a conexão entre pessoas e povos e contribuir para a construção de uma cultura de paz. Em entrevista para o site da Memória da Eletricidade, a fundadora e curadora do Museu da Pessoa, Karen Worcman, uma das convidadas do Preserva.Me 2020, faz um balanço destas duas décadas de atividade e conta as novidades da casa.

P: Ano que vem, o Museu da Pessoa completa 30 anos como uma instituição de acervo colaborativo, fundada antes da popularização da internet. Durante estas três décadas, assistimos ao surgimento de inúmeras ferramentas digitais colaborativas. Como se deu essa transição do físico para o virtual? O que essas mudanças significaram para o Museu da Pessoa ao longo da sua história e o quais são as possibilidades futuras?

R: O Museu da Pessoa nunca foi físico, já nasceu como um museu virtual em 1991, tendo sido um dos primeiros museus virtuais do mundo, antes de a internet existir como conhecemos hoje. Naquele momento, ser virtual significava que o principal objeto da coleção do museu, as narrativas de vida, eram algo intangível. Dessa forma, o primeiro formato que se pensou para o museu foi uma base de dados que juntaria todas essas narrativas. Com a chegada da multimídia, o museu foi pioneiro na construção dos primeiros CD-ROMs no Brasil, em 1994, com uma parceria com histórias do São Paulo Futebol Clube. O primeiro site surge em 1996 e, no ano seguinte, começou a participação do público. O mundo digital trouxe possibilidades de concretizar conceitos que já estavam presentes desde a origem do Museu da Pessoa. A ideia de criar um acervo de histórias de pessoas que pudessem ser preservadas não requer necessariamente que exista uma sala de exposições física onde os visitantes possam ter contato com esses registros. Através de nossa plataforma on-line, toda e qualquer pessoa pode ter acesso ao nosso acervo, criar coleções e contar sua própria história. Como o mundo virtual atualiza-se cada vez mais rápido, um dos desafios é acompanhar essa velocidade, pela qual novos softwares e recursos surgem a todo momento. O acervo só cresce e as possibilidades são inúmeras, por isso a mudança é uma constante. Atualmente, estamos atualizando nossa plataforma e buscando cada vez mais desenvolver parcerias com grupos de inovação e tecnologia para que o museu continue crescendo, mantendo seu caráter inovador.

P: O Museu da Pessoa está exibindo a programação "Vidas Negras", com diversos formatos de conteúdo, num momento em que o racismo vem sendo discutido no mundo inteiro. Como surgiu a ideia do projeto, como vem sendo desenvolvido?

R: O desejo de trabalhar com as histórias e fotografias de pessoas negras do Museu da Pessoa surgiu há alguns anos, quando passou a convidar curadores de fora da instituição a olharem para nosso acervo. Em 2019, junto com o curador de fotografia Diógenes Moura, começamos a planejar uma exposição em física e virtual em parceria com o Museu Afro Brasil. Com a pandemia, vimos que a ideia inicial não poderia ser executada tão cedo. Ao mesmo tempo, a relevância do tema apenas cresceu. Decidimos manter nossa programação dedicada às vidas negras, criando uma série de iniciativas complementares adaptadas ao momento atual. Convidamos Sueli Carneiro, Day Rodrigues, Luciara Ribeiro e Roberto da Silva para compor um comitê curatorial para o projeto. Além da exposição de fotos com curadoria de Diógenes Moura, inaugurada em nossa plataforma on-line, são diversas ações ao longo do semestre, como entrevistas do programa "Conte Sua História", com o registro da história de vida de dez pessoas de especial relevância no contexto político, cultural, acadêmico e social da questão racial no Brasil. Outra ação é o lançamento de uma temporada de podcast em formato de storytelling com os depoimentos do "Conte Sua História". Há também a mostra virtual com produções audiovisuais de autoria negra, a partir de histórias de vida de pessoas negras do acervo do Museu da Pessoa. A ação educativa usará as fotos e histórias da exposição "Vidas Negras" como estímulo ao uso do conteúdo em sala de aula. E os saraus, criados a partir as fotografias presentes na exposição como matéria para a criação de micronarrativas, cordéis e performances. 

P: A despeito de ter também em seu acervo histórias de personalidades públicas, o Museu da Pessoa se propõe a contar a história de pessoas "comuns". Quais as diferenças e principais desafios da catalogação e gestão de acervos e histórias de cidadãos anônimos (muitas vezes invisíveis para a sociedade) quando comparadas com a custódia de acervos oficiais de governos e entidades ou de personalidades públicas, como políticos e artistas? Isso demanda alguma técnica específica? 

R: Podemos dizer que a diferença não está tanto na técnica utilizada para preservação do acervo, mas sim na definição daquilo que deve ser preservado. Em acervos oficiais, em geral há uma determinação específica do que deve ser salvaguardado. No caso de personalidades públicas, normalmente são as famílias dessas pessoas. Já no Museu da Pessoa, não há uma política oficial, mas sim uma intenção de fomentar o contínuo crescimento de um acervo colaborativo de histórias de vida. Temos a missão de transformar a história de toda e qualquer pessoa em patrimônio da humanidade, e por isso cada um pode decidir o que quer deixar registrado para preservação e disseminação. 

P: Nesses quase 30 anos já é possível enxergar uma história coletiva construída por esses vários depoimentos individuais? É possível enxergar um retrato, ainda que parcial, da nossa sociedade?

R: É possível enxergar não apenas um retrato, mas muitos. Com um acervo de mais de 18 mil histórias coletadas ao longo desses quase 30 anos de existência, temos uma coletânea de histórias pessoais a partir da realidade brasileira dos séculos XX e XXI. Cada pessoa traz uma perspectiva única sobre a história comum que todos nós vivemos como sociedade. Com uma leitura transversal desses depoimentos é possível criar uma série de retratos coletivos sobre o Brasil. Histórias dos saberes populares, histórias das mulheres, dos povos indígenas… Cada leitura pode criar uma nova perspectiva coletiva. A atual programação, "Vidas Negras", é um retrato de famílias e pessoas negras no Brasil e representa uma dessas possibilidades de leitura transversal de nosso acervo.

Cadastre-se no site da Memória da Eletricidade e assista ao vídeo da íntegra do painel "A experiência do Museu da Pessoa na construção colaborativa de acervos", com Karen Worcman:


Luiz H. Romanholli

Jornalista formado pela Escola de Comunicação da UFRJ, foi repórter e subeditor do caderno de cultura do Globo (RJ), além de editor-adjunto de Esportes e editor do suplemento de carros do mesmo jornal. Numa segunda passagem pelo Globo, exerceu a função de gerente de produtos, negócios e projetos especiais. Na Globo.com e TV Globo, foi gerente de conteúdo/editor-chefe dos sites GloboEsporte.com, Big Brother Brasil, Ego e dos programas de entretenimento da emissora (Projac). Na Memória da Eletricidade, é editor do site e consultor.