Preserva.Me 2020: Acervos e documentos

Postado em 29/10/2020
Luiz H. Romanholli

Jornalista formado pela Escola de Comunicação da UFRJ, foi repórter e subeditor do caderno de cultura do Globo (RJ), além de editor-adjunto de Esportes e editor do suplemento de carros do mesmo jornal. Numa segunda passagem pelo Globo, exerceu a função de gerente de produtos, negócios e projetos especiais. Na Globo.com e TV Globo, foi gerente de conteúdo/editor-chefe dos sites GloboEsporte.com, Big Brother Brasil, Ego e dos programas de entretenimento da emissora (Projac). Na Memória da Eletricidade, é editor do site e consultor.

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O impacto da revolução digital na preservação fotografias, imagens, filmes e vídeos foi discutido nos dois painéis do terceiro dia da sexta edição do Encontro Internacional de Preservação e Memória, Preserva.Me 2020. Tendo como tema "Acervos e documentos", a quarta-feira, 28 de outubro, começou com o encontro da manhã, "A fotografia no contexto digital", em que a historiadora Aline Lopes Lacerda, chefe do serviço de Arquivo Histórico do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, e o historiador, roteirista e professor da Escola de Comunicação da UFRJ, Mauricio Lissovsky, debateram sobre problemas e soluções que surgem com advento das imagens digitalizadas. Num cenário em que se produz imagens de maneira, ao mesmo tempo massiva e efêmera, se faz necessária uma nova discussão sobre a catalogação e organização dos acervos de fotografias e imagens digitalizadas. No painel da tarde, "Os desafios do audiovisual na era digital", Antônio Laurindo, coordenador de Documentos Audiovisuais e Cartográficos do Arquivo Nacional, Débora Butruce, presidente da Associação Brasileira de Preservação do Audiovisual e Hernani Heffner, gerente da Cinemateca do MAM Rio, refletiram sobre cultura da preservação, políticas públicas e obsolescência das mídias.

O Preserva.Me 2020 tem como tema de sua 6ª edição “Memórias digitais: ações de preservação e difusão de acervos”. O evento acontece entre os dias 26 e 30 de outubro, apresentando 9 painéis que abordam 5 pilares temáticos: "Difusão de acervos", "Curadoria digital", "Acervos e documentos", "Humanidades digitais" e "Integração de acervos". Em decorrência do isolamento social imposto pelo surto do coronavírus, pela primeira vez, o Preserva.Me acontece inteiramente on-line, sem evento presencial. Os painéis podem ser acompanhados pelo canal da Memória da Eletricidade no Youtube.

Cadastre-se no site e assista ao vídeo da íntegra do painel "A fotografia no contexto digital", com Aline Lopes Lacerda e Maurício Lissovsky:


Primeiro painel: "A fotografia no contexto digital"

Em sua exposição, "A era digital e seu impacto na gestão de acervos fotográficos", Aline Lopes Lacerda fez um breve resumo de sua trajetória e citou a historiadora Luciana Heymann para dimensionar o tamanho das mudanças impostas pela revolução digital: "Um pressuposto: a tecnologia não é só um meio – ela também muda as formas de vermos os fenômenos nos seus sentidos suas práticas". 

– A tecnologia muda a forma de nos posicionarmos diante dos fenômenos. Mas o digital não muda tudo. As metodologias de catalogação e organização desses acervos, por exemplo. Existem as permanências e existem as mudanças – ponderou a historiadora da Fiocruz.

Aline Lopes Lacerda separou o digital em dois cenários. No primeiro, a tecnologia atua como mediadora e preservadora dos arquivos fotográficos analógicos, uma ferramenta de auxílio na preservação e no acesso. No segundo, os documentos arquivados já surgem digitais:

– No primeiro cenário, o digital funciona como um avatar para o documento original, que é físico. A questão que se impõe é como digitalizar? Afinal, documento fotográfico não é só imagem, é o objeto. A imagem é o texto do documento. Não podemos ser seduzidos pela força da evidência da imagem. Temos que considerar os atributos que estão no verso, ao lado dos documentos.

"Arquivo é um constructo social"

Aline ressalta a importância da preparação a documentação no processo da digitalização em que o digital está apenas fazendo essa mediação:

– Uma regra de ouro é só digitalizar arquivos organizados. É preciso criar relações com o original, o DNA da digitalização, verificar metadados. Importam os contextos políticos, institucionais, documentais de produção, circulação e consumo. E a identificação factual ajuda nessas camadas de contextualização. Não há arquivo puro, selvagem. Ele é um constructo social. 

No caso dos arquivos natodigitais, ressalta a historiadora, o cuidado se dá principalmente quando da aquisição de documentos digitais pessoais e de acervos de fotos institucionais, registros feitos por empresas ou entidades com fins promocionais ou comemorativos: 

– O momento da aquisição costuma ser pelo método passivo. Mas arquivistas precisam se acercar do ambiente de produção. São muitos os desafios da produção de documentos digitais domésticos quando são adquiridos por instituições – alertou Aline. – Há um debate sobre a interferência do preservador nesses acervos antes da doação de modo a que a contextualização não se perca. Não há arquivo puro, selvagem. É um constructo, não algo que surge na natureza. 

Borboletas, agulhas e os vários sentidos de uma imagem

O historiador visual Mauricio Lissovsky partiu da análise de fotografias feitas ao longo do tempo para criar a narrativa "O historiador visual e o dilema das borboletas". Ele refletiu sobre os vários significados de uma foto e as relações que imagens podem ter mesmo separadas no tempo por décadas. Na comparação entre um flagrante de um colecionador de borboletas feito no século XIX por um daguerreótipo e uma foto digital do ombro de uma jovem fotógrafa em que está tatuada uma câmera, Lissovsky encontrou pontos de contato surpreendentes:

– Na foto do colecionador, todas as imagens são duplicadas. Há um jogo de múltiplas duplicações. Assim como as borboletas, o daguerreótipo também é um objeto frágil. E também é um espécime em vias de extinção – comparou. – Já câmera tatuada, pousada no ombro da fotógrafa na segunda imagem cria um curto-circuito. Aquilo que Walter Benjamin chama de imagem dialética. A câmera-fóssil decalca na pele do vivo, a sombra de seu próprio desaparecimento. Mas, em ambas as fotos temos a agulha, que fixa a borboleta do colecionador e fixa uma tatuagem. Duas pontas de uma história.

No ambiente digital, as imagens ganham novos significados ao serem compartilhadas, manipuladas ou transformadas em memes:

– Caiu na rede é peixe. Pode cair peixe e virar polvo na web. E a digitalização do acervo precipita o voo das borboletas. Quando tomamos uma fotografia de um arquivo, essa imagem começa uma viagem rumo ao futuro.

No debate mediado por Ana Paula Goulart, consultora da Memória da Eletricidade, Aline e Maurício falaram sobre o desejo das pessoas hoje por visibilidade e sua compulsão pelo registro fotográfico, mesmo de momentos banais. Um excesso que talvez seja o espírito do nosso tempo.

– Concordo que há uma enorme produção. Ainda há muito campo para ser demarcado. Essa produtividade enorme vem numa capa de efemeridade – analisou Aline. – Fotografamos milhões de pratos de comida, gatos e cachorros. Esse novo mundo é o mundo das nuvens, do efêmero, que vai evanescendo. Para nós, profissionais dos arquivos, é preciso entender como está se dando a produção desse usuário. Ele cuida do essencial? Do ponto de vista das instituições de guarda, esses desafios vêm sendo impostos. Precisamos trilhar o caminho para o entendimento e criar formas para lidar com isso.

Maurício identifica a mesma questão:

– O problema para uma instituição é como selecionar o que importa. A rede pulveriza tudo. É preciso de alguma instância em que a lógica da organização seja preservada. E há uma enorme redundância nessas imagens de hoje.

Cadastre-se no site e assista ao vídeo da íntegra do painel "Os desafios do audiovisual na era digital", com Débora Butruce, Hernani Heffner e Antônio Laurindo:


Segundo painel: "Os desafios do audiovisual na era digital"

Quais são os desafios do audiovisual na era digital? Na tarde do terceiro dia do Preserve.Me 2020, Antônio Laurindo, coordenador de Documentos Audiovisuais e Cartográficos do Arquivo Nacional, Débora Butruce, presidente da Associação Brasileira de Preservação do Audiovisual e Hernani Heffner, gerente da Cinemateca do MAM Rio, participaram do segundo painel do dia e refletiram sobre o tema.

No debate, mediado pelo pesquisador da Fiocruz e doutor em Comunicação pela UFRJ Igor Sacramento, o trio tocou, de forma apaixonada, em pontos sensíveis para todos que se preocupam com temas relativos à memória: a obsolescência das mídias contemporâneas e o papel das políticas públicas para garantir o armazenamento adequado e tentar desenvolver uma cultura de preservação.

– Foram feitos cerca de quatro a seis milhões de filmes em película ao longo de 130 anos de história. É um número extraordinário. Mas nem se compara com o que se produz diariamente hoje. Se produz, provavelmente, 600 ou 700 milhões de registros audiovisuais por dia – comparou Hernani Heffner.

E acrescentou: 

– O grande desafio é repensar o que temos hoje. Não só em termos de volume ou qualidade tecnológica. Mas a própria natureza do que temos hoje. Este repensar tem que, na verdade, reeducar. Existe hoje uma disciplina muito importante que é educação patrimonial, reeducar a sociedade para que ela seja uma parceira, de fato, neste processo de preservação.

Ao refletir sobre processo de preservação das mídias digitais, Débora Butruce chamou atenção para a velocidade dos avanços na área.

– Há a obsolescência tecnológica programada pelo mercado – lembrou, destacando ainda que, em comparação com a produção analógica, o conteúdo nativo digital se degrada de forma mais silenciosa. – Para reduzir perdas, recomendo a reformatação dos arquivos a cada mudança tecnológica. Um processo que depende de um planejamento estratégico para garantir o aporte necessário de recursos.

Foi o que aconteceu no Arquivo Nacional, instituição, fundada em 1838, que conseguiu incluir a digitalização de películas cinematográficas no orçamento proposto para o período de 2020 até 2023:

– No Arquivo Nacional, temos uma política de arquivo digital, que também está sendo atualizada – contou o Antônio Laurindo. – O desafio sempre é para o audiovisual por conta dessa dependência tecnológica. A indústria não pensa em preservar, pensa em vender mais produtos. A gente precisa pensar nisso... Vai armazenar em nuvem? Nuvem pertence a alguém, pertence a um lugar. Uma política mesmo de estado de preservação digital é o que a gente tem que tentar estabelecer.

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Confira a cobertura Confira a cobertura dos outros dias de evento:

Difusão de acervos

Curadoria digital

Humanidades digitais

Integração de acervos


Luiz H. Romanholli

Jornalista formado pela Escola de Comunicação da UFRJ, foi repórter e subeditor do caderno de cultura do Globo (RJ), além de editor-adjunto de Esportes e editor do suplemento de carros do mesmo jornal. Numa segunda passagem pelo Globo, exerceu a função de gerente de produtos, negócios e projetos especiais. Na Globo.com e TV Globo, foi gerente de conteúdo/editor-chefe dos sites GloboEsporte.com, Big Brother Brasil, Ego e dos programas de entretenimento da emissora (Projac). Na Memória da Eletricidade, é editor do site e consultor.