As fake news sobre saúde: questões sobre verdade e internet

Postado em 28/08/2020
Igor Sacramento

Doutor em Comunicação e Cultura da UFRJ e pesquisador do Laboratório de Pesquisa em Comunicação e Saúde da Fiocruz. Professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da UFRJ e do Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde da Fiocruz. Pesquisador do CNPq.

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As fake news se tornaram um problema de saúde pública. E esse processo tem cada vez mais a ver com a internet. A internet tornou-se gradualmente crucial em nossas vidas cotidianas, à medida que a usamos para trabalho, lazer, interação com amigos e familiares e obtenção de todas as informações de que achamos precisar. Portanto, a proliferação de notícias falsas e desinformação on-line se torna uma questão cada vez mais importante, pois nem sempre é fácil para os usuários distinguir entre informações factuais e confiáveis e conteúdo pseudocientífico ou manipulado on-line, promovendo também teorias da conspiração, recomendando uma cura milagrosa ou até mesmo defendendo causas dignas, como as mudanças climáticas.

Em um período tão crítico quanto a pandemia de Covid-19 em que estamos, essas preocupações se tornam mais importantes, já que a maioria das pessoas fica em casa e a internet se torna uma fonte dominante para acessar notícias e discutir questões atuais. Ao mesmo tempo, esse é um período de grande ansiedade para muitos, do ponto de vista financeiro e de saúde e, consequentemente, o medo, a angústia e o desespero podem levar muitos usuários a seguir conselhos, acreditar e compartilhar reivindicações que podem se tornar prejudiciais para si e para os outros. Contar com desinformação é perigoso a qualquer momento, mas os perigos são maiores durante crises generalizadas, como a atual.

A verificação e o estabelecimento da verdade levam tempo

A disseminação global de plataformas de mídia social exacerbou essas preocupações, pois os usuários podem criar e compartilhar conteúdo em várias plataformas muito rapidamente, enquanto a verificação e o estabelecimento da verdade levam tempo e esforço desproporcionalmente mais altos. Além disso, notícias falsas e postagens relevantes sobre desinformação geralmente podem circular em grupos privados entre indivíduos que têm um interesse específico em acreditar que as alegações são verdadeiras, pois podem corresponder às suas ideias ou esperanças. Isso se torna mais óbvio, por exemplo, quando se fala em mídias sociais ou fóruns de indivíduos que enfrentam sérias condições de saúde, tornando-os ainda mais vulneráveis ao Covid-19. Nesses casos, o medo e a necessidade de esperança podem levar as pessoas a tentarem conselhos de saúde radicais ou sem fundamento e a comprar medicamentos não testados ou prejudiciais.

Uma resposta comum às fake news é a checagem dos fatos. Sem desconsiderar o mérito desse trabalho, é preciso reconhecer que é difícil convencer as pessoas a deixarem de restringir o conhecimento sobre a verdade às convicções que constituem suas identidades. O problema, então, é menos o de verificação das fake news do que o de compreensão dos sentidos de verdade nos processos de produção, circulação e consumo. Entender as lutas pela verdade no nosso tempo é também observar diferentes cosmovisões postas em conflito, especialmente por conta da comunicação digital. O debate sobre fake news está, em geral, fundamentalmente associado ao processo de crise de confiança nas instituições públicas, na ciência e no jornalismo diante da profusão de grupos e práticas sociais marcados pela produção, circulação e consumo de informações mais segmentadas. Quais são as mediações culturais envolvidas nos processos de circulação e consumo de informações sobre saúde? Por que determinadas pessoas confiam em certas informações sobre vacinação e não em outras? O que na cultura explica tais disposições, comportamentos e práticas?

Em relação à propagação de fake news, não se trata somente da desconfiança na ciência e no jornalismo, mas sobretudo da apropriação de determinados discursos e posturas de modo a legitimar suas próprias crenças, pontos de vistas e posições políticas. Ou seja, importa observar o gerenciamento público das emoções e as estratégias sensíveis envolvidas em mobilizar, por exemplo, posturas negacionistas em relação à pandemia, mas também à ciência e ao jornalismo.

Afirmação de dogmas como princípios de verdade

As emoções se configuram, portanto, em uma variável que não pode ser deixada à margem do debate. A mobilização instrumental dos afetos na configuração política contemporânea opera dentro do processo de constituir vínculos políticos indissociáveis da capacidade de ser afetado, de ser sensivelmente afetado, de entrar em um regime de estética. Ou seja, as fake news não se limitam à dicotomia verdade/mentira, mas sobretudo à construção de narrativas alternativas ao consenso científico sobre diversos assuntos. Sendo assim, tais informações levam à negação da realidade e da verdade presumidas em estudos científicos em prol do reforço de posicionamentos emocionais em torno da afirmação de dogmas como princípios de verdade. A noção de pós-verdade nos sugere um mundo sem fundamentos, no qual tudo é permitido, quando, de fato, os valores estão se tornando mais rígidos e dogmáticos e, em muitas ocasiões, são de natureza autoritária.

As verdades presumidas em notícias e informações falsas são regidas por certas conveniências. Em detrimento da procura por uma (in)formação técnica específica, os sujeitos estão se sentindo cada vez mais especialistas em determinados assuntos à medida em que cruzam o curto caminho da busca pela informação simplificada na internet, aquela massivamente disponibilizada nas ambiências digitais. Na vida contemporânea, as múltiplas formas de comunicação em rede amplificam a espessura do eu, dos sentimentos e experiências pessoais como fonte de conhecimento verdadeiro e confiável. Enquanto a afirmação da verdade promovida pelo jornalismo e pela ciência vem sendo contestada, os atores sociais frequentemente promovem uma combinação de informações imprecisas, experiência pessoal e crenças coletivas que está subjacente à maneira como as pessoas entendem os eventos no mundo ao seu redor e sobre a saúde, em particular.