Mediações sociotécnicas na circulação de vídeos no YouTube

Postado em 28/08/2020
Daniela Muzi

Jornalista e documentarista, integra a equipe da VideoSaúde Distribuidora da Fiocruz, do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz), onde coordena a Oficina VideoSaúde - da ideia ao argumento. É doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde (PPGICS/Icict/Fiocruz)

Compartilhar


A importância da cultura audiovisual é sentida e experimentada por diversos segmentos e setores da sociedade, seja por meio dos produtos da indústria cultural, de tecnologias educacionais ou das formas de sociabilidade propiciadas pelo uso da internet. Com a pandemia do novo coronavírus, essa experiência tem se intensificado e nesse “novo mundo” ainda mais audiovisual aumenta-se o protagonismo do YouTube. A produção e circulação de imagens extrapola o setor do entretenimento alcançando campos como o da saúde, ciência e política. Em uma sociedade midiatizada, onde as lógicas da produção midiática se espraiam pelas práticas sociais, a disponibilização de vídeos no YouTube ganha força estratégica para visibilizar temas e pessoas, despertando o interesse de instituições, empresas, pesquisadores, grupos, movimentos sociais e cidadãos comuns.

Desde a sua criação em 2005, como um site de compartilhamento de vídeos pessoais, o YouTube vem transformando-se em um grande arquivo audiovisual mundial e um buscador de informação. Os milhares de canais disponíveis reúnem tanto conteúdos produzidos por amadores, quanto conteúdos produzidos por profissionais, o que faz parte de um fenômeno de institucionalização da plataforma, que tem sido cada vez mais uma janela de exibição de instituições públicas e privadas, empresas e artistas. Nessa grande biblioteca audiovisual encontra-se tudo sobre quase tudo. Mas, para fazer jus à referência à Biblioteca de Babel do conto de Jorge Luiz Borges, é preciso resolver a importante questão da estabilidade dos conteúdos ali depositados, que ficam à mercê dos usuários.

Algoritmo, 'hashtags', ciberativismo e engajamento

Mas como se dá o processo de circulação de vídeos no YouTube? Por que alguns vídeos são mais vistos e circulam mais do que outros? A resposta à questão da circulação está no imbricamento das mediações sociais e tecnológicas, as mediações sociotécnicas, que atuam e transformam o processo de circulação dos vídeos, entendendo como atores desse processo as pessoas e a tecnologia. As mediações sociotécnicas agem de forma decisiva para que os filmes ampliem ou não seus circuitos de circulação de origem, em especial a ação dos algoritmos pelos sistemas de recomendação e indexação; as listas de filmes que circulam pela internet; ações de ciberativismo e engajamento e a mediação do comunicador em combinação com a ação algorítmica. Adicionam-se os tipos de ação dos meios digitais como os botões de compartilhamento, as formas de incorporação dos vídeos em outros sites, o uso de hashtags para indexação de temas, que são acionadas e remodeladas a partir das ações dos usuários.

As mediações sociotécnicas estão cada vez mais determinadas e são cada vez mais determinantes na circulação dos vídeos, mas, além disso, nos mostram como a ação humana é também um diferencial no mundo digital. O ciberativismo e os apelos para o engajamento têm o potencial de acionar a dimensão afetiva revelando que as redes sociotécnicas são também redes de amor e ódio, esperança e descrença. Do resto se encarregam os algoritmos, incansáveis e resistentes e com “alto nível de comprometimento”, se assim é possível dizer, evidenciando que jamais foram só técnica, pois toda técnica é social, produto e resultado da ação humana.