Processo de digitalização iconográfica da Memória da Eletricidade

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Resultado final da junção e tratamento de três partes da imagem panorâmica dos testes de vazão d’água da Usina Hidrelétrica Estreito


A Memória da Eletricidade é uma instituição que tem dedicado esforços na preservação de acervos e na preservação digital, este último um tema que surgiu no século XXI como um assunto de grande complexidade para os profissionais da área de acervos. Dentre os fundos e coleções que a entidade salvaguarda, soma-se cerca de 6.600 itens iconográficos, como, fotografias, desenhos técnicos, gravuras etc..

O trabalho de tratamento das imagens é uma prioridade para a equipe responsável da Gerência de Acervo e Pesquisa. O processamento técnico dos acervos recebidos tem a importante função de tornar o documento acessível ao usuário. Para além da divulgação no site, as fotografias têm grande importância na produção editorial da Memória da Eletricidade.

Para compreender o ofício da preservação de imagens digitalizadas e natodigitais é necessário reconhecer a complexidade do processo de cada documento no que tange à recuperação das informações e à subjetividade da informação retratada. O tratamento das imagens também tem como objetivo, prolongar a vida útil do item documental.

O procedimento de preservação das imagens é complexo. Em relação ao tratamento de fotografias digitalizadas, a questão principal é o manuseio e o uso de ferramentas apropriadas. No caso das natodigitais, há a fragilidade do documento digital e o volume absurdo de produção desse tipo de documento nos dias atuais.

Para o tratamento digital de iconografias, é necessária a atuação de profissionais que tenham expertise no tratamento de imagens, e tecnologias (software e programas) disponíveis, que possibilitem o processamento técnico e a divulgação do acervo para o público.

Para contar detalhadamente sobre o processo, a especialista em tratamento digital e técnica de arquivo da Memória da Eletricidade, Vanessa Baranda, concedeu uma entrevista, respondendo a perguntas primordiais para o entendimento do processo. 

Etapas de identificação, separação, higienização, catalogação e acondicionamento

Pergunta: Como é realizado o processo de tratamento digital?

Vanessa Baranda: É importante entender que o processo de digitalização, tratamento e organização das fotografias digitalizadas, assim como o tratamento e organização das fotografias natodigitais se fazem necessários nos processos de preservação. No meio físico, são primordiais as etapas de identificação, separação, higienização, catalogação e acondicionamento. Após a consolidação desses passos, é o momento de criar uma estrutura semelhante em um servidor exclusivo para preservação desses acervos. Na Memória da Eletricidade, as iconografias são armazenadas tanto no servidor quanto no Shiro, o sistema de acervo ligado ao site da instituição. Em um segundo momento, com a “casa em ordem” é hora de capturar as imagens, com aparelhos de alta precisão, no processo de digitalização. Scanners de alta performance e computadores são indispensáveis para auxiliar o trabalho do especialista em iconografias digitais. Cabe ressaltar que assim que digitalizado é necessário deixar uma cópia do documento digitalizado sem nenhum tratamento prévio, a fim de guardar o registro do tratamento que a imagem receberá. 

Captura de imagens com aparelhos de alta precisão e digitalização em scanner de alta performance  

Tratamento da imagem em computador

P: A respeito de espaço de armazenamento, quais são as demandas que esse trabalho apresenta?

VB: O uso de HD externo, cartão de memória, pen drives, CDS, DVDS, etc, estão em desuso pelo perigo que a obsolescência do aparelho pode causar. Por isso, a Memória da Eletricidade garante a segurança do armazenamento dos documentos digitais em servidor interno e externo.

P: O que é necessário para garantir a gestão a longo prazo desses acervos digitalizados?

VB: Os equipamentos de guarda precisam ser constantemente checados, como no caso do Shiro, sempre é feita uma manutenção preventiva garantindo a guarda do documento digital. No processo de digitalização se faz necessário estar sempre em consonância com a preservação física, lógica e intelectual do documento digital. Compreende-se a manutenção e renovação das extensões (.jpg, .png, .tiff, .pdf, .mp3, .mp4, .wav, .avi, etc) sempre que houver renovação ou alteração de software de leitura dos arquivos em questão. 

Manutenção preventiva para garantir a guarda do documento digital 

P: Que tipo de acervo pode ser tratado digitalmente? Existe alguma pré-condição para a realização da restauração digital?

VB: Toda cópia digital de um documento/acervo pode ser submetida a um tratamento digital. Porém, o tratamento pode ser mais ou menos complexo dependendo do estado. Um exemplo é o tratamento de uma fotografia que teve danos em seu suporte, com rasgos, ou falta de informação, não ter como recuperar a parte faltosa ou muito danificada. Para tratar digitalmente os arquivos digitais, é indispensável que a digitalização e conversão dos arquivos seja feita, inicialmente, em alta resolução. Quando o arquivo está em alta resolução, existe mais informação, o que chamamos de pixel por área trabalhada. Isso permite que a resposta do tratamento digital seja a melhor possível para as condições específicas de cada arquivo digital.

P: Onde esses materiais digitalizados e natodigitais ficam armazenados após o tratamento?

VB: Os documentos digitais são acondicionados, no caso da Memória da Eletricidade, em servidor externo da instituição, de uma empresa que presta esse tipo de serviço. Nele, os documentos digitalizados e natodigitais são acondicionados respeitando toda a organização elaborada pelos profissionais e gestão da equipe da Gerencia de Acervo e Pesquisa . A empresa checa os servidores e backups constantemente para garantir que nenhuma falha mecânica possa acarretar em um possível “corrompimento” de arquivo, mas ainda assim isso não é garantia de que o documento digital vai se manter integro para sempre. Daí, a necessidade constante de atualização de suporte e checagem do suporte dos documentos digitais.

P: Você poderia apresentar alguns exemplos de trabalhos de restauração e recuperação documental e contar um pouco da sua experiência no acervo da Memória da Eletricidade?

VB: Durante meu período na Memória da Eletricidade, já fiz alguns trabalhos de recuperação, restauração e manipulação digitais em fotografias. Mas, essas interferências se fizeram necessárias para publicações e/ou entendimento de um “todo documental”. E, sempre que essas imagens editadas vão para nossa base de dados, informamos que ela teve alguma intervenção/manipulação digital e que o documento físico e/ou original não é o que teve intervenção. E nos utilizamos dessas informações, principalmente, quando estamos tratando de imagens panorâmicas que, há tempos atrás, eram feitas por meio de várias fotografias de tamanho padrão que eram coladas com fitas adesivas pelo autor e/ou produtor do documento. Dos trabalhos que fiz, gostaria de destacar a recuperação de algumas fotografias do Almirante Álvaro Alberto, que se fizeram necessárias para ilustrar seu livro, e precisavam de tratamento digital contra o desgaste natural da fotografia. Dependendo do estado da fotografia e da necessidade de recuperação, a manipulação pode levar alguns minutos ou, até mesmo, horas de tratamento. Nas fotos do Almirante, recuperei a tonalidade de tons de cinza e removi todas as manchas de colônias de fungos e bactérias, além do equilíbrio de tons e outros pequenos ajustes. Gostei do resultado de recuperação sem modificações bruscas em outros elementos da imagem. Para a edição desse conjunto, eu utilizei o software Photoshop e a ferramenta mesa digitalizadora da Wacom (para trazer mais agilidade e sutileza ao tratamento). Outra de que eu gosto bastante é a junção da imagem panorâmica dos testes de vazão d’água da Usina Hidrelétrica Estreito, que é formada pela união de três partes fotográficas, fisicamente , que estão muito amareladas pelo desgaste natural da película fotográfica, e também possuem bastantes arranhões na película (provavelmente pela má conservação antes de ser entregue aos cuidados da Memória da Eletricidade e ser devidamente acondicionada). Neste caso, como são três fotos diferentes, cada uma tem uma degradação natural diferente que levou cada uma ter uma tonalidade amarelada diferente. Então, para uniformizar todas elas, transformei a tonalidade para tons de cinza, e fui ajustando cada uma das imagens, trabalhando com máscaras em camadas, até que elas tivessem um resultado semelhante de tonalidade para cada uma das três partes, para que pudessem ser unidas. Em seguida, utilizei ferramenta de clonagem e substituição de área pra “apagar” as linhas de borda/junção das três imagens, e então utilizei o filtro minimizador de rabiscos e arranhões e o filtro de nitidez com máscara em alguns pontos específicos de destaque na cena, além da reconstrução de um caminhão que foi afetado pelas linhas de junção das fotografias. Foi um trabalho de bastante paciência e atenção . Para essa panorâmica, utilizei o software Photoshop e um mouse comum.

Almirante Álvaro Alberto, foto original

Almirante Álvaro Alberto, foto tratada

P: Quais são os benefícios da digitalização dos documentos históricos?

VB: Sem dúvida, os benefícios mais impactantes para a digitalização de documentos históricos para preservação digital são a preservação da informação do documento por um tempo maior, já que o documento original se degrada com certa agilidade, o acesso que o documento digital pode proporcionar, como mais de um acesso simultâneo, com o bônus de não haver a necessidade de manuseio de documentos que são, por vezes, frágeis e delicados pela própria condição e degradação natural. Então, o registro digital mantém a informação e continua dando acesso mesmo a documentos que não se encontram mais no acervo físico da instituição.

Para conhecer um pouco mais sobre o trabalho da Vanessa e da equipe da Gerência de Acervo e Pesquisa, acesse as iconografias disponíveis para consulta e pesquisa


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